Monday, November 16, 2009
Thursday, August 20, 2009
à volta de uma fogueira nas fragas
magia de um tempo esquecido
em que a limpidez se reflecte nos rostos de todos nós
contadores de estórias infinitas
as mãos tacteiam o fogo
que do peito se solta
não creio que amanheça
a magia permanecerá em nós
minuto após minuto
dos rostos fracamente iluminados pelas labaredas
sonhos desgovernados na ponta dos dedos
calor que se aconchega às pernas
(e à alma)
tenho linhas e linhas de estórias para contar-vos
sob a viola do marco
palhaço que a vida transformou em todos nós
nas rédeas de um tempo solto
que a realidade jamais roubará
tenho estórias na ponta dos dedos
acolhe-as em tuas mãos
conta-as no teu sorriso dedilhado
o universo beberá as tuas impressões
impregnadas de bondade e anseios
são estes os momentos que permanecem
para sempre na memória inapagável de cada um de nós
são estes os momentos de magia
que mais tarde recontaremos em cada fogueira extinta
são estas as estrelas que levamos connosco
as estrelas e os sorrisos inocentes
que em nossos peitos permanecerão
md
Sunday, August 16, 2009
Friday, July 24, 2009
o negócio dos livros ou os absurdos da vida
Para encontrar instituições que acolham as obras publicadas há mais de quatro anos e que não obtiveram sucesso comercial, a IN-CM está a encetar contactos com a Associação Nacional dos Municípios Portugueses (ANMP), câmaras municipais, Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, Ministério da Cultura e bibliotecas de Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP).
A oferta de livros a instituições acaba, porém, por levantar um problema para Alcides Gama: "Se as bibliotecas se habituam a receber os livros oferecidos acabam por não os comprar e os livros são feitos para ser vendidos", defende.
Sunday, July 19, 2009
recado
não creio que o sentido se encontre
nessas névoas trespassadas
revolteios e revoltas
de quem nada sabe
e se perdeu
Saturday, May 09, 2009
destino
Ter um destino é não caber no berço onde o corpo nasceu, é transpor as fronteiras uma a uma e morrer sem nenhuma.
Monday, April 27, 2009
Matadouros
Matadouros de Gado
Matadouro de suínos
Thursday, April 23, 2009
e não dizemos nada...
e colhem uma flor do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem,
pisam as flores, matam o nosso cão.
E não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles, entra
sozinho em nossa casa, souba-nos a lua,
e, conhecendo o nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada,
já não podemos dizer nada.
Maiakovski (1893-1930)
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho o meu emprego
Também não me importei
Agora estão a levar-me
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.
Bertold Brecht (1898-1956)
Thursday, April 09, 2009
o ser humano tem coisas que não lembra aos animais...
Se eu até poderia compreender que a nível de marketing e publicidade pudesse ser inconveniente ao Banco Alimentar contra a Fome ser confundido com outra instituição, basear também essa exigência na legitimade maior ou menor das pessoas/animais é incompreensível.
Costuma vir-me à mente muitas vezes esta frase: o ser humano transporta-se a si próprio em tudo aquilo que faz; é por isso que nestas instituições/associações se originam tantos debates e quezílias. Ninguém deixa de ser quem é por pertencer a uma instituição de solidariedade social, pelo contrário, por vezes serve-lhe para exacerbar egos.
Não é esse o objectivo, nem o factor primário. Pena que se continue a verificar.
Felizmente há outros tantos que o fazem de coração. É com esses que estou disposta a trabalhar. Prefiro a ajuda anónima e desinteressada. Nessa tenho a certeza que vem o sentimento que nos preenche.
Saturday, April 04, 2009
Tuesday, March 31, 2009
quando a última árvore tiver caído...
Quando a última árvore tiver caído,
Quando o último rio tiver secado,
Quando o último peixe for pescado,
Vocês vão entender que dinheiro não se come.
(Greenpeace)
Monday, March 09, 2009
Going somewhere?
- The same as you, I guess.
- In what world do you live?
Wednesday, March 04, 2009
Cálculos por cá...
Vamos fazer uns cálculos simples...
Mas para tentar dimensionar um pouco as cifras envolvidas o telespectador fez o seguinte cálculo:
"O planeta tem 6.700 milhões de habitantes, se se dividisse - "só" os 700.000 milhões de dólares - entre os 6.700 milhões de pessoas que habitam o planeta, equivaleria a entregar-lhes 104 milhões de dólares a cada um."
"Com isso não só se erradicaria de imeditao toda a pobreza do Mundo, como automaticamente se converteria em milionários TODOS os habitantes da Terra."
Conclui dizendo: "Parece que realmente há um pequeno problema na distribuição da riqueza."
Sunday, March 01, 2009
Touradas (ou acerca do fim das)
Viana do Castelo é oficialmente declarada a primeira “cidade anti-touradas” do país
Nessa mobilização de apoio e encorajamento, a ANIMAL apelou também a todos os seus membros e apoiantes que pedissem ao Presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo para dar o passo natural seguinte e vital, que seria declarar oficialmente a cidade de Viana do Castelo a primeira cidade anti-touradas de Portugal, deixando de autorizar a realização de touradas em espaços públicos da cidade e impedindo a realização destes espectáculos sanguinários em todos os sentidos em que o município o possa fazer. E foi isso que aconteceu ontem, quando o Executivo da Câmara Municipal de Viana do Castelo decidiu, como noticia o “Público” (leia a notícia “Viana do Castelo é a primeira “cidade anti-touradas” do país”, em http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1367028), dar esse fundamental passo, declarando esta a primeira cidade oficialmente anti-touradas de Portugal, juntando-se às 53 cidades e vilas espanholas e às 3 localidades francesas que já foram oficialmente declaradas cidades ou vilas anti-touradas pelos respectivos municípios.
Segundo noticiou o “Público”, “Para [Defensor] Moura, a medida faz todo o sentido por ir de encontro ao perfil de cidade saudável adoptado há mais de uma década, especialmente desde que o município integra as redes, portuguesa e europeia, de Cidades Saudáveis. Para além do respeito pelos direitos humanos, preservação do património natural e promoção dos valores ambientais, o executivo socialista considera que o espírito, de cidade moderna e progressista, deve estender-se ao respeito pelos direitos dos animais”. Ainda segundo noticiou este diário, o Presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo declarou que “A defesa dos direitos dos animais não é compatível com a realização de espectáculos de tortura, que provocam sofrimento injustificado”.
Thursday, February 26, 2009
Thursday, February 19, 2009
o que fizeram do mundo
o que fizeram do mundo parece
impensável aos olhos de uma criança
de esperança genuína e lágrimas límpidas
fizeram dela a imagem do desespero
não nos revemos neste vosso mundo adulto
de politiquice imunda
de dinheiros e sorrisos presumidos
é vosso o caixão que se desenha
e a terra podre que vos incendiará os ossos
(ninguém magoa uma criança impunemente)
Saturday, February 07, 2009
uma saudade
há dias em que queremos dar tudo aos outros
mesmo aquilo que os nossos olhos não alcançam
há dias em que tudo parece pouco
a vida demasiado pequena
para abarcar toda uma experiência
fica uma saudade
de quem nunca mais veremos
e uma prece sentida
que se espera levada numa abraço
Wednesday, January 21, 2009
o fim da vida, João Pereira Coutinho
Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar. Hoje, não. A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis, e um exército de professores, explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição.·
Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida - mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em
progressão geométrica para o infinito.
É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho.
Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a mamar forte no Prozac. É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos.Quanto mais queremos, mais desesperamos.
A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade.O que não deixa de ser uma lástima.
Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne, saberiam que o fim último da vida não é a excelência, mas sim a felicidade!"
Monday, January 12, 2009
Thursday, January 08, 2009
Sunday, December 14, 2008
Não sei se é amor...
fONTE: www.olhares.com/kininhaNão sei se é amor
desejo
ou apenas
uma forma de morrer
tão diferente
e tão igual a tantas outras
Sei apenas
que me fazes falta
como se eu
fosse gaivota
e não houvesse mar
ou como se fosse
andorinha
numa
Primavera
interdita
Dezembro 2008
Sunday, November 16, 2008
de José Saramago e da lucidez
JL: A Viagem do Elefante é uma alegoria, amargamente irónica, da natureza humana?
JS: Sim. Todos nós damos vontade de rir. Somos uns pobres diabos. Usando um termos grosseiro: muita cagança, muita cagança e para quê? Somos pequeníssimos. Não é que uma pessoa tenha que aceitar a sua pequenez, mas parece-me bastante triste a vaidade, a presunção, o orgulho, tudo isso com que pretendemos ou queremos mostrar que somos mais do que efectivamente somos. Não será caricato ou ridículo, mas bastante triste.
[e ainda acerca do livro e do ter sido escrito durante o período em que esteve doente]
JL: Foi uma convulsão?
JS: Creio que sim, que se passaram coisas estranhas nesse período em que estive doente. Durante um tempo, talvez umas horas, um dia ou dois, apresentou-se-me, por exemplo, uma imagem com um fundo negro e quatro pontos brancos formando um quadrilátero irregular. Eram brilhantes como se fossem corpos celestes no espaço.
JL: Que pontos eram esses?
JS: Tive a certeza que esses quatro pontos eram eu.
JL: Imaginou essa espécie de transposição ou redução quântica?
JS: Não foi uma imaginação. Vi e soube que eu era aqueles quatro pontos. E tenho que dizer que isso não me pertubou nada. Para ser franco, até tenho pena de os ter deixado de ver.
JL: E como teve a certeza de que era esses pontos?
JS: Não havia traços fisionómicos, apenas a consciência de que podia estar reduzido a esses quatro pontos, que a complexidade física e mental do ser humano se poderia reduzir a esses pontos que nem sequer eram regulares.
JL: O que descreve parece a experiência absoluta da relativização da existência diante da morte.
JS: É uma espécie de total despersonalização. Eu tinha deixado de ser quem julgava que era, ao mesmo tempo que me reconhecia nesses quatro pontos. Como é que isso se produziu, não me perguntem.
(...)
Wednesday, November 12, 2008
perguntas feitas a crianças
COMO DECIDIR COM QUEM CASAR?
Precisamos de procurar alguém que gosta das mesmas coisas. Se tu gostas de futebol, ela também deve gostar e quando estás a ver um jogo ela deve trazer-te batatas fritas e cerveja.
Alfredo 10 anos
Niguém decide sózinho com quem casar. Deus decide por nós muito tempo antes e só temos é que aceitar.
Cristina, 10 anos
QUAL É A MELHOR IDADE PARA CASAR?
A melhor idade para casar é aos 23 anos, porque assim já conheces o teu marido pelo menos há 10!
Camila, 10 anos
Não existe a melhor idade para casar. Tem de se ser muito estúpido para querer casar.
Fernando, 6 anos
O QUE TÊM OS TEUS PAIS EM COMUM?
Não querem ter mais filhos.
Ana, 8 anos
O QUE FAZEM DUAS PESSOAS NO PRIMEIRO ENCONTRO?
Os encontros são para as pessoas de divertirem e devem aproveitar para se conhecer melhor um ao outro. Até os meninos têm coisas interessantes para dizer se lhes prestarmos bastante atenção.
Luísa, 8 anos
No primeiro encontro, contam-se mentiras interessantes para conseguir um segundo encontro.
Martim, 10 anos
O QUE FARIAS SE O PRIMEIRO ENCONTRO NÃO DESSE CERTO?
Ía para casa e fazia de conta que tinha morrido. Melhor, mandava publicar nos jornais da da região que tinha morrido.
Carlos, 9 anos
QUANDO SE PODE DAR O PRIMEIRO BEIJO?
Quando o homem é rico.
Pamela, 7 anos
Quando se beija uma mulher, tem que se casar e ter filhos com ela. É assim a vida.
Henrique, 8 anos
O QUE TEMOS DE FAZER PARA QUE O CASAMENTO TENHA SUCESSO?
Temos que dizer à nossa mulher que ela é linda, mesmo que se pareça com uma camioneta estampada...
Ricardo, 10 anos
Sunday, October 26, 2008
Monday, October 06, 2008
Renascer
do mar
nasce o teu abraço
no teu porão
sonho
a vigília das noites futuras
neste barco
onde está escrita
toda a tua vida
as ondas devolvem-me
os segredos do teu olhar
não há lua
não há mar
apenas o cais
onde desembarco
e recomeço
Saturday, October 04, 2008
no dia internacional do animal
Declaração Universal dos Direitos dos Animais
Considerando que todo o animal possui direitos,
Considerando que o desconhecimento e o desprezo destes direitos têm levado e continuam a levar o homem a cometer crimes contra os animais e contra a natureza,
Considerando que o reconhecimento pela espécie humana do direito à existência das outras espécies animais constitui o fundamento da coexistência das outras espécies no mundo,
Considerando que os genocídios são perpetrados pelo homem e há o perigo de continuar a perpetrar outros.
Considerando que o respeito dos homens pelos animais está ligado ao respeito dos homens pelo seu semelhante,
Considerando que a educação deve ensinar desde a infância a observar, a compreender, a respeitar e a amar os animais,
1.Todo o animal tem o direito a ser respeitado.
2.O homem, como espécie animal, não pode exterminar os outros animais ou explorá-los violando esse direito; tem o dever de pôr os seus conhecimentos ao serviço dos animais.
3.Todo o animal tem o direito à atenção, aos cuidados e à proteção do homem.
1.Nenhum animal será submetido nem a maus tratos nem a atos cruéis.
2.Se for necessário matar um animal, ele deve de ser morto instantaneamente, sem dor e de modo a não provocar-lhe angústia.
1.Todo o animal pertencente a uma espécie selvagem tem o direito de viver livre no seu próprio ambiente natural, terrestre, aéreo ou aquático e tem o direito de se reproduzir.
2.toda a privação de liberdade, mesmo que tenha fins educativos, é contrária a este direito.
1.Todo o animal pertencente a uma espécie que viva tradicionalmente no meio ambiente do homem tem o direito de viver e de crescer ao ritmo e nas condições de vida e de liberdade que são próprias da sua espécie.
2.Toda a modificação deste ritmo ou destas condições que forem impostas pelo homem com fins mercantis é contrária a este direito.
1.Todo o animal que o homem escolheu para seu companheiro tem direito a uma duração de vida conforme a sua longevidade natural.
2.O abandono de um animal é um ato cruel e degradante.
1.A experimentação animal que implique sofrimento físico ou psicológico é incompatível com os direitos do animal, quer se trate de uma experiência médica, científica, comercial ou qualquer que seja a forma de experimentação. 2.As técnicas de substituição devem de ser utilizadas e desenvolvidas.
1.Nenhum animal deve de ser explorado para divertimento do homem.
2.As exibições de animais e os espetáculos que utilizem animais são incompatíveis com a dignidade do animal.
1.Todo o ato que implique a morte de um grande número de animais selvagens é um genocídio, isto é, um crime contra a espécie.
2.A poluição e a destruição do ambiente natural conduzem ao genocídio.
1.O animal morto deve de ser tratado com respeito.
2.As cenas de violência de que os animais são vítimas devem de ser interditas no cinema e na televisão, salvo se elas tiverem por fim demonstrar um atentado aos direitos do animal.
1.Os organismos de proteção e de salvaguarda dos animais devem estar presentados a nível governamental.
2.Os direitos do animal devem ser defendidos pela lei como os direitos do homem.
Monday, September 29, 2008
a estupidificação e o entendimento crescem em conjunto
- tudo isto pergunta a mente, o ser racional.
aprendemos a distinguir entre mente/pensamento e sentimento/emoção/SER. a nossa natureza torna-se clara e o nosso objectivo também.
a guerra torna-se um acto abjecto. incompreensível.
qual o objectivo de se ser senhor da guerra? e senhor da luta de poderes?
o ser humano engana-se e inicia jogos de consequências catastróficas para toda a humanidade.e está convencido de que fica cá para todo o sempre a negociar e regatear os pedaços de terra em que dividiu o Planeta e a jogar com preços de acções e petróleo.
parece conversa de crianças e de concursos de beleza apelar à paz? meus amigos, que outro objectivo o desta estadia para além dela desfrutar preservando ao máximo o planeta que legaremos às gerações vindouras? que outro objectivo o da nossa estadia para além de passar o legado a alguém?
isto tudo a propósito de quê?
da brutalidade que continua a existir contra os nossos animais, que desta vez bateu à porta de uma amigo meu, tendo encontrado mais um dos seus animais de estimação (o que seria o mesmo que dizer um dos seus familiares) morto por envenenamento.
Wednesday, September 24, 2008
Dias de Melo

| Nascido na ilha do Pico, Freguesia da Calheta de Nesquim, Concelho das Lajes do Pico, José Dias de Melo morreu hoje, aos 83 anos, após 50 anos de vida literária com várias obras publicadas, entre as quais PEDRAS NEGRAS, traduzida em inglês e japonês. Talvez como ninguém, Dias de Melo soube retratar e enobrecer a vivência picoense, em especial as gentes dos mares, os valentes protagonistas da saga baleeira. E a literatura do século XX perde um dos seus grandes nomes. |
Sunday, September 14, 2008
ATÉ QUANDO?!?
Armanda Pinto Ribeiro, de 50 anos – voluntária de três associações de defesa dos animais e que vive perto do local onde o cão foi mutilado – foi contactada pela dona do animal quando esta percebeu, passadas mais de 15 horas, que ele ainda estava vivo. As duas levaram o cão à clínica Planeta Animal, em Aveiro. Aqui, o animal foi assistido, tendo chegado a ser preparado para uma cirurgia com o objectivo de lhe serem amputadas as quatro patas, mas acabou por não resistir à extensão dos ferimentos e ao número de horas que ficou sem assistência.
"Sabemos quem foi o indivíduo que fez isto. Ele tinha ordens para cortar a erva do terreno, que pertence a umas pessoas de Lisboa, e quando foi para lá com a máquina de ceifar, viu o cão e mutilou-o. Ele fez de propósito, por crueldade. Ele até teve que fazer marcha-atrás com a máquina, para passar por cima do cão. O animal tentou fugir, num primeiro momento, mas depois deve ter ficado desorientado, com o barulho, e acabou por ser apanhado".
"No fim ele ainda se virou para a dona, que assistiu a tudo sem poder fazer nada, e disse-lhe 'O teu cão, esquece, ficou arrumado!'", indicou ainda Armanda Pinto Ribeiro ao PÚBLICO, confirmando que o cão era de pequeno porte, tinha cerca de um ano, e não era ameaçador.
Os donos do animal dirigiram-se à GNR para apresentar queixa, onde lhes terão solicitado os documentos de registo do animal e o boletim de vacinas, que o animal não tinha, como explicou ao PÚBLICO o tenente comandante Faria, do destacamento da GNR de Aveiro.
Para apresentar queixa deveriam ter os documentos", diz, acrescentando que esta acabou por não ser apresentada. "Ninguém recusou a queixa", garante o graduado. Mas confirma, após a questão lhe ser colocada, que, havendo testemunhas que confirmassem que as pessoas em causa eram proprietárias do cão, isso bastaria para seguir com a queixa em frente, mesmo sem documentos.
A queixa sobre a agressão ao animal acabou por chegar depois à GNR pela linha SOS ambiente e o tenente comandante Faria afirma que "estão a correr as diligências levadas a cabo pela equipa de protecção da natureza e ambiente para apurar a verdade dos factos e definir se existe matéria contra-ordenacional ou criminal".
De acordo com informação disponível no site da associação ANIMAL, a violência contra animais é punível com coimas cujos valores podem variar entre os 500 e os 3740 euros. Mas Miguel Moutinho, da associação, explica que a agressão a animais não consta como crime na legislação portuguesa. E que a única maneira de punir criminalmente quem agride é encarando a agressão como um crime de dano de propriedade. Para isso os donos têm de ser identificados como tal. O caso passa então para a esfera do Ministério Público, a quem se pode apresentar a queixa directamente.
"Se for um cão vadio não se trata de um crime. A legislação portuguesa não tipifica como crime um único acto de violência contra animais. Mas aqui há crime de dano, a propriedade de alguém foi destruída. Sem dono, a agressão leva a uma mera contra-ordenação. E se o agressor não tiver dinheiro fica tudo na mesma", explica Miguel Moutinho.
E sobretudo, faça rimas ricas, ainda que de realidades pobres
Martius de Oliveira
Monday, September 01, 2008
em Retiro
Retiro da Fraguinha - Serra da Arada - http://www.pesnaterra.com/
Pés na Terra - Turismo, Desenvolvimento Rural e Valorização Humana
Monday, August 25, 2008
mensagem de Verão
Friday, August 22, 2008
das férias o regresso
Saturday, August 02, 2008
Definição de Avó
Definição de Avó
Artigo redigido por uma menina de 8 anos e publicado no Jornal do
Cartaxo.
'Uma Avó é uma mulher que não tem filhos, por isso gosta dos filhos dos outros.
As Avós não têm nada para fazer, é só estarem ali.
Quando nos levam a passear, andam devagar e não pisam as flores
bonitas nem as lagartas.
Nunca dizem 'Despacha-te!'. Normalmente são gordas, mas mesmo assim
conseguem apertar-nos os sapatos.
Sabem sempre que a gente quer mais uma fatia de bolo ou uma fatia maior.
As Avós usam óculos e às vezes até conseguem tirar os dentes.
Quando nos contam historias, nunca saltam bocados e nunca se importam
de contar a mesma história várias vezes.
As Avós são as únicas pessoas grandes que têm sempre tempo.
Não são tão fracas como dizem, apesar de morrerem mais vezes do que nós.
Toda a gente deve fazer o possível por ter uma Avó,sobretudo se não
tiver Televisão'.
Sunday, July 06, 2008
quanto vive o homem?
Thursday, July 03, 2008
Tertúlia "A Poesia não tem nome"

Desafiamo-lo desde já a trazer um poema (que poderá ser da sua autoria) e a partilhá-lo connosco.
Consigo esta festa de palavras transformar-se-á num poema!As nossas saudações poéticas.
Marta Dutra



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Monday, June 30, 2008
formas distintas de envelhecer
Lamento as coisas que não disse
e os projectos que não realizei
numa segurança afinal insegura
Os meus dedos já não têm cor
os meus olhos deixaram de ver
perdi a noção das coisas evidentes
Como eu lamento não ter sido capaz
de ser eu própria
presa a convenções e opiniões
O meu corpo já não acompanha
as viagens que realizo aqui sentada
A realidade é esta: envelheci!
e só agora o percebo
quando as minhas pernas não me levam onde quero
quando me esqueço de quem sou
Hoppipolla music video by Sigur Ros
.
Wednesday, June 25, 2008
Aguarela
Campos de Aveiro.
Manchas verdes de arroz,
E a vela dum barco moliceiro
Que um pirata ali pôs.
A servir de moldura,
O velho mar cansado;
E um céu alto a descer e a ter fundura
Na quilha reluzente de um arado.
Thursday, June 05, 2008
Revisitando Torga - II
São Leonardo de Galafura
fOTO: Frederico Navarro in http://www.flickr.com/photos
Outro ano. Toda a gente excitada, e, de conhecido para conhecido, esta senha:
- Boas entradas!
- Igualmente! - responde o contemplado. E lá segue cada qual o seu caminho, com o supersticioso pé à frente, não vá o demo tecê-las.
A estafada e monocórdica ária de sempre, que apenas moi os ouvidos de quem é por condenação um rói-migalhas, e passa o tempo a reparar nas inocências do homem, e a registá-las.
Ano Novo! Os torcegões que a realidade sofre nas nossas mãos, a ver se conseguimos disfarçar-lhe a crueza! A imaginação colectiva aos sobressaltos, na grata ilusão (na triste ilusão) de que a coisa vai começar agora, - agora que o ano é novo, o século é novo, a idade é nova. No fundo, todo o passado é um erro para cada um de nós. E como ninguém é capaz de aceitar corajosamente os erros e de fazer deles um roteiro de sinceridade, contorna-se o problema desta ingénua maneira: recomeçar. Sem nos querermos convencer de que nada pode deixar de ser como é, porque continuamos os mesmos e, só errado, o caminho é bonito e nos apetece. Recomeçar uma, duas, cinquenta vezes, e chegar à meta com este lamento hipócrita na boca: -Ah, se eu voltasse aos vinte anos e soubesse o que hoje sei!
Que me lembre, apenas Raúl Brandão teve a grandeza e a lealdade de escrever que repetiria o calvário da vida sem lhe alterar o itinerário. Isto sim, isto é de quem entendeu a fundo que a existência não deve ter soluções de continuidade, nem ser prevista. (...)
Thursday, May 15, 2008
tenho fome
Saturday, April 26, 2008
a morte choca-me sempre
Thursday, April 17, 2008
Wednesday, April 16, 2008
Friday, April 11, 2008
Revisitando Torga - I
S. Martinho de Anta, 5 de Março de 1934
Wednesday, April 09, 2008
Retrato Talvez Saudoso da Menina Insular
o corpo era de areia.
E ele próprio era o início
do mar que o continuava.
Destino de água salgada
principiado na veia.
E quando as mãos se estenderam
a todo o seu comprimento
e quando os olhos desceram
a toda a sua fundura
teve o sinal que anuncia
o sonho da criatura.
Largou o sonho nos barcos
que dos seus dedos partiam
que dos seus dedos paisagens
países antecediam.
E quando o seu corpo se ergueu
Voltado para o desengano
só ficou tranquilidade
na linha daquele além.
Guardada na claridade
do olhar que a retém.
Saturday, March 29, 2008
Arribo à Ilha...
Arribo à Ilha sob um céu acolchoado de nuvens densas. Só nos píncaros se acha embuçada de negrume a serra de Água de Pau. No sobejo da encosta, virada à cidade e ao aeroporto, escorre tinta azulácea, a cair no roxo. Mesmo mutilada, sinto-a revestida da majestade olímpica de deusa que ali persiste para escorar e dar sentido à paisagem de que participa. O casario da Lagoa detém-se num sorriso desabrochado, alumiando o fundo do horizonte. As chaminés das fábricas espetam-se no algodão churro da atmosfera abatida. Ando de Ilha às costas. Escorre-se-me em suor por todo o corpo. Sempre que se manifesta em pesadume exsuda e transpira-nos...
Thursday, March 20, 2008
da Poesia hoje
Lembro: “A poesia não vai à missa,
Saturday, March 01, 2008
ontem em Fânzeres - obra premiada: Vago - o Olhar
--
Sou eu aqui, o mundo a meus pés, ao antes, o mar. Fico nele e ele em mim. Sou apenas mais uma sombra que o céu tolera, sem asas de pássaro, sem pio, sem grito, sem esvoaçar. Sou apenas eu aqui sentada, eu e o mar, eu e o mundo, e talvez um navio que me veja ao longe.
Marta Dutra, Vago- o Olhar
17ª edição do Prémio Nacional de Poesia de Vila de Fânzeres
Thursday, February 21, 2008
fica em ti
mas é teu o caminho
das estrelas
luas sóis e mares
de luz
é teu o universo
finito no teu corpo
é teu o abraço
para lá do tempo
fica em ti
uma voz doce
e uma calma que
apaga o lamento
fica em ti
um suave respirar
e uma esperança
sem fim
Wednesday, February 06, 2008
Thursday, January 31, 2008
biblioteca

Thursday, January 24, 2008
dias desiguais
o olhar dos cães abandonados
.
Cabeçudos e gigantones
no céu como um guindaste.
Hirta, metálica, adstringente e fria,
como a encontraste?
Se eu devesse guardar-te respeito por teres um sorriso amável,
por serem castanhos os teus olhos ou por pisares o chão de certa maneira,
então respeitaria também a tua certeza inabalável
e dela te pediria um farrapo para o arvorar em minha bandeira.
Faz-me pena a tua certeza como se tivesses sofrido um acidente,
como se te visse estendido num leito, impossibilitado de te mexeres.
Em tua certeza, cadeira de rodas, fazes-te conduzir piedosamente,
e os caminhos passam por ti sem tu passares por eles, e sem os veres.
Embrulhado na tua certeza, de rosto voltado para a parede,
adormeces sorrindo enquanto a vida, aos borbotões exulta.
Foguete de lágrimas, meandros sem rectas, catapulta,
veio de água que afoga e nunca mata a sede.
Monday, January 07, 2008
Carta a Fátima
Dizias: como dantes e não era já nisso que pensavas, e não era já para mim que falavas, eu era uma coisa para esquecer, para deitar fora, uma coisa que se abandona caída no chão e se perde sem pena. Dizias: «adeus» e saías da minha vida com um aperto de mão desembaraçado, quase cordial um gesto de boa camarada, como se nada tivesse havido antes, como se não tivéssemos sido tantas vezes na cama, um dentro do outro, um no outro, um-outro diferente, uma coisa sublime: Deus Criador, como os míseros humanos só ali o podem sentir e saber; um Outro que éramos nós ainda, mas tão transtornados, tão virados para fora de nós, tão esquecidos do mundo e de nós, tão eficazes, tão leais, nós boca com boca, corpo a corpo, um sexo torturando um sexo, mordendo-se devorando-se, numa febre de chegar ao fim depressa, ao esquecimento, ao repouso. Disseste: adeus e eu odiei-te logo nesse minuto, como te odeio agora, não por ti ou pelo teu corpo que já me esqueceu noutros que vieram depois, mas porque morri ali naquela palavra, -morri entendes? -, perdi-me numa grande confusão, esqueci-me de ser eu, fiquei roubado do meu passado.
Hoje, encontrarias um outro homem; havia de rir-me do teu corpo, da sua entrega ou das suas traições, de tu me dizeres: «Vem» ou «Adeus...», ou «Não quero...». Hoje, saberias quem fizeste com uma só palavra, conhecerias um outro homem, que é obra tua, minha segunda mãe! Hoje, havia de rir ou chorar, era a máscara do momento; mas diria: tanto faz..., tanto me faz... Sabia-o!
Saturday, January 05, 2008
da Caruma
ainda sinto e ouço a Caruma: "Minhas senhoras e meus senhores os carrumerros!" :-) e nós imbuídos nessa magia que aquece a alma... novos, velhos e crianças num espaço comum, num movimento compreensível a poucos. leitura da vida, evolução, descoberta interior, numa linguagem falada que parece mística ou talvez uma língua nova se tenha inventado pensa quem não a entende. ah! dêm espaço, queremos mostrar a possibilidade no meio de tantas vivências multifacetadas. ah! se não a entendes é porque talvez ainda estejas na dança dos casacos e egos. olha para além de ti, despe-o e voa!!!... só assim poderás perceber que as árvores também podem descer do céu... e deixar a poesia fluir, viver...
Friday, December 07, 2007
Espaço curvo e finito
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças e ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe, um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.
Tuesday, November 20, 2007
esboço
desenho-te um esboço
recortado
vislumbres
de uma criança
que te estende uma flor
e te segreda
a enormidade do mundo
a cada dia
um gesto
uma imagem
e um sol que se desprende
no olhar de uma criança
com um sorriso
e uma flor estendida
para o João Ricardo Lopes
reticências - João Ricardo Lopes
um pouco para a esquerda
apenas um pouco, mal se nota.
ela, a do rosto, é bonita
mas não a direi assim:
di-la-ei antes pensativa, circunspecta
poisando os olhos decerto aí
ali, quem sabe no alvoroço de que esquina.
tem (terá) trinta anos ou menos.
menos, sem dúvida:
vinte e cinco talvez.
debaixo de algum glacial da expressão
vêem-se a espaços picos de luz
e são eles que esforçam por abrir
por ser a difícil clareira
contra razões tão cerradas.
a cortina voltou a tapar tudo
não se vê o rosto dela
não se sabe o quê, como ou porquê
somente isto, somente a noção
de que não existem pontos finais —
reticências quando muito
Friday, November 09, 2007
palavras para a apresentação do livro "dez anos de solidão"
Wednesday, November 07, 2007
Prémio Nacional de Poesia de Vila de Fânzeres
"Vago- O Olhar" - Marta Dutra (a ser editada em breve)
a todos os incentivadores, o meu obrigado!
Tuesday, November 06, 2007
CARUMA - Um projecto de arte comunitária

Friday, November 02, 2007
A FLOR
RodrigoTuesday, October 16, 2007
Os paraísos artificiais - Jorge de Sena
Friday, October 12, 2007
Para Sophie - João Ricardo Lopes
fOTO: Guido Caldeira in http://www.olhares.com/Guido.
Thursday, October 04, 2007
eu nunca guardei rebanhos...
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol,
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
(...)
Alberto Caeiro
Sunday, August 26, 2007
caminha pelo teu corpo um silêncio como uma aragem
a terra estende-se infinita nos teus passos
ao passares o horizonte serás o último
e partindo de mim avanças
caminha pelo teu corpo um silêncio como uma aragem
onde o lugar das palavras que esquecemos?
se o nosso mapa foi o sol e as manhãs
onde foi que nos perdemos?
caminha pelo teu corpo um silêncio como uma aragem
como um martírio triste como um homem cansado
como a morte ao fim da tarde como um rio
como um silêncio profundo a levar-te
caminha pelo teu corpo um silêncio como uma aragem
começam hoje os dias os meses os anos depois de ti
começa hoje a ser recordação apenas o quanto vivi
e partindo de mim avanças
caminha pelo teu corpo um silêncio como uma aragem
não vás porque a vida é aqui e o esquecimento é longe
mas tu não me ouves já avanças
e a noite segura-te por onde vais
caminha pelo teu corpo um silêncio como uma aragem
ainda agora partiste e és já uma memória desfocada
Monday, August 20, 2007
SÃO JORGE, COSTA NORTE
fOTO: http://supertatas.blogspot.com/2006/08/aores-s_25.htmlA terra treme: é o vulcão oculto da ilha, a boca de rir tremendo, o registo nos ramos altos das árvores livres... Tremer sem medo é uma linguagem da ilha, a febre profunda de chegar às raízes das pessoas...
É Verão quando não chove e o vento sopra do sul. E se chover é o mesmo...
O basalto é azul até onde o mar chega... A costa norte rebenta de silêncio e o João, a golpes de enxada, põe ao sol o corpo submerso dos inhames.
As crianças da Fajã sorriem para o sol-total desta manhã norte de São Jorge: este é o poema!
Fecho os olhos e com as mãos procuro em carícia a erva no solo e levo-a à boca como um animal civilizado que lhe agradece a beleza e o aroma magnífico deste céu terreno.
João acena-me com os braços erguidos, chama-me com o seus gestos de pescador e camponês: gestos que trazem raízes e ondas, a bondade universal da ilha e do mundo!
Não é o que sinto e canto que faz o Poema! O poema é a Ilha e a sua gente; o resto do que digo não passa duma manhã de esmeralda com um homem dizendo “bom dia” nos gestos de trabalhador!
Carlos Faria, S. Jorge
Saturday, August 18, 2007
sou os mil ventos que sopram
Porque não estou lá.
Não estou adormecido.
Sou os mil ventos que sopram,
Sou o brilho do diamante na neve,
Sou a luz do Sol na semente madura,
Sou a chuva branda do Outono.
Na quietude macia da luz matutina
Sou a ave que voa veloz.
Não pares junto à minha campa a chorar,
Eu não estou lá,
Eu não morri.
Tuesday, July 31, 2007
Mar com poeta dentro
fOTO: Hélder Freitas in http://www.olhares.com/SaxMarO corpo da ilha não tem nome
próprio de quem se rodeia de orvalhos antigos.
Quando navega não tem
rumo nem destino.
No cais a penumbra branca desce
sobre a viagem adormecida.
Desconhece-se que poeta foi ver o mar por dentro.
Mas sabe-se quem grafitou com sonhos
os muros da solidão.
Álamo Oliveira, In Novos Rumores do Mar
Sunday, July 29, 2007
tempo
fOTO in http://www.olhares.com/DETAILFriday, July 27, 2007
sentados no silêncio

Com os mortos só poderemos ter delicadeza, mas o caminho por onde seguem é-nos hostil desde o primeiro passo; não nos resta outra coisa senão esperá-los aqui, sentados no silêncio, o coração em desordem. Talvez um verão ardente os traga até à nossa porta, dois golfinhos de prata no anel e o cheiro das ilhas no cabelo, para que o inverno seja suportável.
Thursday, July 26, 2007
Da Emigração
fOTO: Paulo Madeira in http://www.olhares.com/mossOs homens partiram do seu seio-Ilha
em buscar de um lugar-prosperidade
Na bagagem
levaram o negro do basalto
e o cheiro da criptoméria
No olhar
a saudade do mato
do pasto manchado a preto e branco
da morraça que não molha molhando
e que os transforma numa substância incorpórea:
na alma do milhafre que abraça as montanhas
Thursday, July 12, 2007
Ocupações de Verão - Eugénio
Finalmente disponho de tempo, disponho mesmo do tempo todo, posso fazer o que quiser dos meus dias, por exemplo, estender-me ao sol e aguardar a chegada das formigas. Não podem tardar, e quando chegarem já aqui me encontram, a mim, que sou vacilação, ou o que restar de mim, boa-noite, umas sandálias, uns óculos, algumas sílabas quase de vidro. Tenho de pensar no que direi a criaturas tão susceptíveis; seria de mau gosto distraí-las das suas ocupações, falar-lhes-ei do trigo vermelho da Hungria, às vezes quase violeta, dos cardos de Epidauro rastejando na terra, à procura do coração da água. Mas quando me voltei para seguir o voo do pássaro, apercebi-me que o tempo mudara, as formigas já não viriam. Com efeito o sol escurecera, a chuva não tardaria, torrencial. Quem me ajudará agora a rilhar a eternidade?
Se o vento vier
De repente, sem saber por onde entrara, eu tinha a lua comigo. Não era a primeira vez, não, não era. A primeira vez havia sido há muitos anos: adormecera na eira sobre o feno, e quando acordei a lua estava a meu lado e fizera da noite um interminável e azul lago de prata. Eu flutuava no luar espesso, pensava menos que uma folha de papel. Todo o esforço que fazia era para não me desprender do solo, como se a acção da gravidade não me dissesse respeito, e flutuar no espaço fosse a minha vocação. Se o vento vier, não tenho mais remédio que abandonar-me e ver até onde me levam os seus espíritos.
Sunday, July 08, 2007
Sinfonia de Cor - Armando Cortes-Rodrigues
Sempre defronte
de mim
o mar azul, o mar imenso, o mar sem fim,
todo igual e azul até ao horizonte.
Neste dia delirante
de luz crua a jorrar, intensa, lá do alto,
uma vela distante
mancha de branco o seu azul-cobalto.
Um traço de espuma branca
junto à penedia
marca a linha da costa em enseada franca.
E a nota branca
das gaivotas em bando,
esvoaçando
à revelia,
e um ritmo novo de alegria,
de ruído e de graça.
Perto uma vela passa,
lenço branco a acenar...
Não ter asas também para poder voar
aonde me levasse a minha fantasia!
E ser gaivota e mergulhar
na água e bater asas,
alegre, todo o dia!
Poisar nos calhaus negros, que são brasas,
brasas negras a arder,
e ver aos pés a referver
aos borbotões de espuma.
Dar um grito e subir,
subir alto e distante,
já quando a terra se esfuma
e o mar aumenta, quanto mais avante.
Partir!
Partir para o delírio das alturas,
só, entre o céu e o mar,
longe do mundo e mais das criaturas.
Ah! Não ter asas e poder voar
de alma desvairada,
entontecer-me de espaço...
– Nota branca riscada
entre o azul do céu e o azul do mar.
Depois voltar
para ver
o sol morrer
num clarão de fogueira,
incendiando o céu, metalizando o mar...
E ver a noite abrir
o regaço
para deixar cair
uma a uma as estrelas.
Adormecer a vê-las...
Depois sonhar,
num delírio de cor, a noite inteira.
Armando Cortes-Rodrigues
Friday, July 06, 2007
aborrecimento social
Foto: Vanda Lacão in http://www.olhares.com/samyti corrompi-me novamente. o ter, o querer mais, sempre e acima de tudo. o medo de ter fome, de viver na rua, de sei lá que mais. medo. e voltei a ser como queriam que fosse. a correr, autómato, com um objectivo fixo, mas na verdade sem rumo. não é este o meu caminho, não é minha esta azáfama enervante sem tempo para mais, isto não é meu, é vosso. eu sigo para um lugar longe disto. as convenções, as obrigações toldam o pensamento, inibem o espontâneo que há em mim. ah a imagem a manter, tão importante. é verdade. tão importante essa imagem que quero que tenham de mim. ahahahah deixem-me rir da ideia. fantasias de todos nós. como se isso fosse ter alguma importância no todo.
quando vivia na ilha, rodeada de olhares, opiniões alheias, pensava muitas vezes que a minha vida nesse micro-cosmos não interessava a mais ninguém fora dele. nesse isolamento toda a vivência assume outra proporção, mas fora dali as estórias de telenovela não interessam para nada. na verdade, todos vivemos num micro-cosmos, e as nossas estórias não interessam para nada fora dele, porque ninguém nos conhece. valerá a pena toda a preocupação com a imagem que têm de mim os outros, se as cores combinam, se o cabelo é vermelho ou amarelo!?! acreditem, se quiserem, isso tem pouca importância, porque sou muito mais do que isso, e não me assumo como um de “vós”.
Tuesday, July 03, 2007
Dissolução no corpo - Octávio Mora
Sunday, June 24, 2007
Epitáfio - Sérgio Brito
Devia ter amado mais,
ter chorado mais,
ter visto o Sol nascer...
Devia ter arriscado mais,
até errado mais,
ter feito o que eu queria fazer...
Queria ter aceite
as pessoas tal como elas são.
Cada um sabe a alegria
e dor que traz no coração.
Devia ter complicado menos,
trabalhado menos,
ter visto o pôr-do-sol.
Devia ter-me importado menos
com problemas pequenos,
Ter morrido de amor...
Queria ter aceite
a vida tal como ela é
a cada um cabe a alegria
e a tristeza que vier...
O Acaso vai-me proteger
enquanto eu andar distraído.
Tuesday, June 19, 2007
Juro que não vou esquecer - António Lobo Antunes
Monday, June 18, 2007
Navegador do mar das ilhas - Cristóvão Aguiar
Meus dedos
Sou de certa maneira
Cristóvão Colombo,
Eu, que também sou navegador
Tuesday, June 12, 2007
Revista Minguante

Monday, June 11, 2007
Alexandre Borges - Heartbreak Hotel
a qualquer outro, como tu, mas nós
nós é diferente
pertencemos aqui como duas lajes de um chão mosaico
parte do quadro pintado para os passos
de quem apenas levite
e de repente toda a dança é possível no rodopio do
tempo, nas
têmporas do rosto grande das figuras em estátua
perfumadas
nas catedrais.
Visita-me lá, visita-me aqui, reconhece os lugares
que cruzaste
à beira dos caminhos, a caminho de outros lugares
quaisquer.
E tira fotos para os escaparates, dos pedestais, dos
estendais, das escapatórias das linhas de fuga das
obras de arquitectura dos arrozais
no mar mora a chuva que não chegou a chover
como na terra o fogo que não ardeu,
há um trigueiro em chão sagrado da vindima
sem templo sem pai nem mãe nem voz
e ainda assim é cantor e trigueiro e filho e sacerdote
a meio da chuva que não choveu, do incêndio
que nada consumiu
há viagens por dentro e por fora, de lado a lado dos
orientes da tua curva
o perfil talhado dos deuses desde a tua boca
ao fim do mundo conhecido.
Quero-te com prazo de validade
a duração de dois corações descartáveis
a força e o medo do primeiro astronauta
o espanto passageiro de uma criança
a contenção de um diplomata
falando ao País.
E sei-te de cor para a próxima vez em que um de nós
tenha de ir embora
antes de vir a luz
Friday, June 08, 2007
Ronald de Carvalho e Ledo Ivo
Geometrias, imaginações destes caminhos de minha terra!
Curvas de trilhos
triângulos de asas,
bolas de cor…
Sombras redondas agachadas entre as árvores,
cilindros de troncos embebidos na luz…
Geometrias, imaginações destes caminhos de minha terra!
Cheira a mar!
Melancolicamente, esta alegria geométrica,
pingando brilhos polidos,
o leque das bananeiras abana o ar da manhã…
Vou sempre além de mim mesmo
em teu dorso, ó verso.
O que não sou nasce em mim
e, máscara mais verdadeira
do que o rosto, toma conta
de meus símbolos terrestres.
Imaginação! teu véu
envolve humildes objectos
que na sombra resplandecem.
Vestíbulo do informulável,
poesia, és como a carne,
atrás de ti é que existes.
E as palavras são moedas.
Com elas, tudo compramos,
a árvore que nasce no espaço
e o mar que não escutamos,
formas tangíveis de um corpo
e a terra em que não pisamos.
Se inventar é o meu destino,
invento e invento-me. Canto.
Monday, June 04, 2007
In Loco - José Martins Garcia
das pedras dos bichos e das fábulas
ao passo que os humanos bolorecem jovens
idênticos a intemporais naufrágios
ilha de quem? de quê? de que basalto ou névoa?
borbulha só da minha consciência?
e o Canadá e a Califórnia e o Massachusetts
que demónios açóricos poderão preservar?
oh lendas de baleias e veleiros e terras novas
oh parentes hoje sem identidade
spikando entre arrotos de vera ou ficta abundância
seus novos mares ilusórios!
eu vos lamento e rio e em português me choro
mais uma vez negando a condição da bruma
hoje efectiva material e des-sonhada
mortalha entre o Pico e o Faial
surpreende-me a existência de coisas como ilhas
depois de haverem sido textos meus
surpreende-me a nuvem esmagante
depois de me ter sido vocalismo errante
surpreendo-me eu próprio ao mastigar palavras
em português no meio do Atlântico sem Atlântida
e surpreende-me que os mortos não ressurjam
não compareçam ectoplasmas de sargaço
no fumo do meu charuto talvez americano
versos de quem? de que ilusão linguística?
e que laço vos laça e que fome vos lança
do entardecer ilhéu à banal brisa?
oh Betefete oh Fall River oh Braga Bridge
oh fealdade dos topónimos quando burgos
sonantes
oh fealdade efectiva das pedras picarotas
que avistadas de Newport são legiões heróicas
e grandiosos corsários
e arpões fantasmáticos
e aqui fisicamente são o canal da tristeza
entre o meu ser pardacento
e o murmúrio do longe
silencioso sonho que a geografia esmigalha
Thursday, May 31, 2007
Sul - Eugénio de Andrade
Junho - José Henrique Santos Barros
Foto: Carlos Bettencourt in http://clubezoom.blogspot.com/Tuesday, May 29, 2007
Fábula da ilha - Álamo Oliveira
um bando de gaivotas em liturgia de abandono
(o barco da cruz gramada; os pés da bússula ruindo;
a mosca henriquina emigrada em sono).
na baía incendiada o grito do sossego partilha
âncoras de fundo e fumo com peixes e hortelã.
não era indício de oiro nem esfinge de sereia nem
vagabundo do sonho num deserto de cetim. era ilha!
(nas suas entranhas com vómitos de lava
setia-se crescer a lascívia do povoamento).
........................................................................................
ainda hoje se ouve a angústia do vento
Friday, May 25, 2007
Os nascimentos - Pablo Neruda
A Natividade, Paula RegoTão pacientes fomos
para sermos
que anotámos
os números, os dias,
os anos e os meses,
os cabelos, as bocas que beijámos,
e aquele minuto antes de morrer
deixá-lo-emos sem anotação:
damo-lo a outros de lembrança
ou simplesmente à água,
à água, ao ar, ao tempo.
E de nascer tão-pouco
guardámos a memória,
ainda que importante e jovial
tenha sido a nossa vida:
e agora não te lembras sequer
do mais pequeno pormenor,
não guardaste sequer um ramos
da primeira luz.
Sabe-se apenas que nascemos.
Sabe-se que na sala
ou no bosque
ou no palheiro do bairro piscatório
ou nos canaviais rumorejantes
há um estranho e profundo silêncio,
um minuto solene de madeira
e uma mulher que vai parir.
Sabe-se apenas que nascemos.
Mas da profunda agitação
de não ser para existir, para ter mãos,
para ver, para ter olhos,
para comer e chorar e despojar-se
e amar, amar, e sofrer, sofrer,
daquela transição ou calafrio
do conteúdo eléctrico que um corpo
tomar para si como se fora uma taça viva,
e daquela mulher desabitada,
a mãe que ali fica com o seu sangue
e a sua dilacerada plenitude,
com o seu fim e princípio, e a desordem
que altera o pulso, o chão, os cobertores,
até que tudo se recolhe e mais
um nó é dado com o fio da vida,
nada, não ficou nada na tua memória
do mar bravio que ergueu uma onda
e derrubou da árvore uma maçã sombria.
Não tens mais recordações que a tua vida.
Pablo Neruda, Os nascimentos
Wednesday, May 23, 2007
Ilha - Natércia Fraga
António DacostaTerá sido o vento o mar as gaivotas
Ou a distância
O horizonte perdido o bramir dos temporais
Ou a distância
A solidão da aldeia o espanto da cidade
Enredado em penas de pavão bolos de chocolate e surpresa
A idade tão jovem e a velhice do mundo
Ou a distância
Que naquele cais à luz da noite
Degraus assustados e tentadores
Para a lancha
Reduzida a ser criança
Me levaram os olhos escuridão fora
Durante tempo infinito
E só depois mos devolveram
Entristecidos sonhadores fundos como o mar?
Ou terá sido a ampla misteriosa distância
Que se colava ao horizonte? ...
Porque por vezes naufragamos - VI
A rota seria prolongada. São demorados todos os caminhos que nos conduzem à consumação dos desejos mais íntimos. (…)
A treva impenetrável cingia tão estreitamente o barco que tínhamos a sensação de que se estendêssemos a mão para fora da borda, tocaríamos uma substância de outro mundo. (…)
Quando a ocasião própria chegasse, as trevas dominariam em silêncio a pouca luz das estrelas que caía ainda sobre o barco e o fim de tudo viria sem um suspiro sequer, sem um movimento, sem murmúrio algum, e todos os nossos corações deixariam de pulsar, como relógios a que a corda se acabasse. (…)
Joseph Conrad, A Linha de Sombra, 1917
Tuesday, May 22, 2007
Porque por vezes naufragamos - V
Fonte: GreenpeaceSenti que estava a chegar ao fim de uma longa viagem. (…) Pensei em desembarcar o Pedro Pequeno e depois atirar-me com o Finisterre a toda a força contra a casa das máquinas do Nishin Maru. Trago quinhentos litros de combustível a bordo (…) O Pedro leu-me os pensamentos(…). Vio-o remar em direcção ao Nishin Maru e, quando chegou lá, os tripulantes começaram a atirar-lhe lixo para cima (…)
«A dado momento, quando mais duas mangueiras se tinham juntado à brincadeira e o Pedro já quase não conseguia manter-se a flutuar, emergiu junto do escaler o dorso de uma baleia calderón, que, com todo o cuidado, empurrou o Pedro e a sua embarcação até os afastar do navio. Então, obedecendo a uma chamada que nenhum outro homem ouviu no mar, um chamamento tão agudo que estremecia os tímpanos, trinta, cinquenta, cem, uma multidão de baleias e golfinhos nadaram velozmente até quase tocarem a costa, para regressarem com maior velocidade ainda e chocarem as cabeças contra o barco.
«Sem lhes importar o facto de que em cada ataque muitos morriam de cabeças rebentadas, os cetáceos repetiram os ataques até que o Nishin Maru, empurrado contra a costa, correu o risco de encalhar. Levaram-nos para muito perto dos recifes e havia pânico a bordo. Alguns tripulantes insensatos lançaram barcos salva-vidas que mal tocavam a água eram destruídos com pancadas das caudas. A outros vi-os eu cair à água durante as investidas. Logo se declarou um incêndio a bordo, o helicóptero ardeu na coberta da popa, e Tanifuji deu ordem para se afastarem a toda a força das máquinas, sem se preocuparem com a sorte dos tripulantes que ainda se agitavam dentro de água e que foram implacavelmente despedaçados pelas baleias e pelos golfinhos.
«Custa-lhe a acreditar em tudo isto? Claro que é incrível, mas amanhã verá com os seus próprios olhos o lugar e os restos da batalha.

Luís Sepúlveda, Mundo do Fim do Mundo, 1989
Monday, May 21, 2007
Rota de Ítaca - Marcolino Candeias
da vida na "ilha"
- Estamos numa ilha. Talvez até não haja aqui gente crescida. (…)
- Ninguém sabe que estamos aqui. (…) Temos de ficar aqui até morrer. (…)
William Golding, O Deus das Moscas
Quanto maior era o sucesso desta pequena paródia aos pés da escada, tanto mais sorumbático Augusto se tornava. (…)
Certa noite transformou-se subitamente em mofas e assobios (…). Augusto esquecera-se de «regressar». (…)
Rompido abruptamente o contrato, resolveu fugir daquele seu mundo conhecido. (…)
E então, certo dia, como que numa revelação luminosa apercebeu-se de que já há muito, muito tempo, não conhecia a felicidade. (…)
Tinha começado a viver somente a partir do dia em que se juntara ao grupo, desde o exacto momento em que decidira servir como o mais humilde dos humildes. Aquela vida secreta evaporara-se quase sem ele dar por isso – voltara a ser um homem como os outros, fazendo as mesmas coisas absurdas, insignificantes, necessárias, que os outros faziam – e assim conhecera a felicidade, a plenitude dos dias. (…)
Henry Miller, O Sorriso aos Pés da Escada
Sunday, May 20, 2007
Porque por vezes naufragamos - IV
autor (?)(…) Procurando chegar à superfície, nadei para cima pelo espaço de um, dois, três segundos. Continuei a nadar para cima. Faltava-me o ar. Asfixiava. Tentei agarrar-me à carga, mas a carga já lá não estava. Já não havia nada em redor. Quando cheguei à superfície não vi à minha volta nada que não fosse mar. Um segundo depois, aí a cem metros de distância, o navio surgiu de entre as ondas, deitando água por todos os lados, como um submarino. Só então me apercebi que tinha caído ao mar. (…)
Ao quarto dia já não estava muito seguro das minhas contas em relação aos dias em que já andava na balsa. Eram três? Eram quatro? Eram cinco? (…) Preferi deixar as coisas como estavam, para evitar novas confusões, e perdi definitivamente as esperanças de me virem salvar. (…)
Agora sei que o peixe cru acalma a sede. (…) Decidi embrulhá-lo a camisa e deixá-lo no fundo da balsa para que se mantivesse fresco. Distraidamente, agarrei-o pela cauda e mergulhei-o uma vez por borda fora. Mas o sangue estava coagulado entre as escamas. Era preciso esfregá-lo. Ingenuamente voltei a mergulhá-lo. E foi então que senti a investida e o barulho violento das mandíbulas do tubarão. (…) Voltei a puxar com todas as minhas forças, mas já não havia nada nas minhas mãos. (…)
Nessa manhã tinha optado entre a vida e a morte. Tinha escolhido a morte, e no entanto continuava vivo, com o bocado de remo na mão, disposto a continuar a lutar pela vida. A continuar a lutar pela única coisa que já não me interessava nada. (…)

Friday, May 18, 2007
semelhanças, que é como quem diz: já ouvi isto em algum lado
Thursday, May 17, 2007
Porque por vezes naufragamos - III

- Há-de morder – disse o velho, em voz alta. – Deus permita que ele morda. (…)
- Era meia noite quando o apanhei. E nunca o vi. (…)
O peixe movia-se com constância, e viajavam ambos pelas águas calmas. Os outros anzóis continuavam na água, mas nada havia a fazer. (…)
- Peixe! – disse a meia voz. – Hei-de ficar contigo até morrer. (…)
O velho vira muito peixe graúdo. Vira muitos que pesavam mais de quinhentos quilos, e pescara já dois dessa envergadura, mas nunca só. E agora, só, sem terra à vista, estava amarrado ao maior peixe que jamais vira, maior do que jamais ouvira, e a mão esquerda continuava enclavinhada como as garras de uma águia. (…)
- Galanos. – Vira vir a segunda barbatana atrás da primeira, e identificara ambos como peixes-martelos, por serem castanhas e triangulares as barbatanas, e pelo varrer das caudas. (…)
Pela noite, tubarões atacaram a carcaça, como alguém pode apanhar migalhas da mesa. (…)
Quando entrou no pequeno porto, as luzes do Terraço estavam apagadas, bem sabia que todos dormiam já.(…)
Nessa tarde, havia no Terraço um grupo de turistas e, olhando para a água, entre latas de cerveja vazias e barracudas mortas, uma mulher viu a enorme espinha branca com a portentosa cauda à ponta, que arfava e balouçava na maré, enquanto o vento leste levantava um mar picado e cadenciado, fora da entrada do porto. (…)

Ernest Hemingway, O Velho e o Mar, 1952
Wednesday, May 16, 2007
Baleia! Baleia! - Manuel Ferreira Duarte

Foto: http://www.greenpeace.org/international/photosvideos/photos/sperm-whale-in-the-azores-isl
Baleia! Baleia! é também uma homenagem a quantos os cantaram, muito especialmente a Dias de Melo e à sua prolífera e consagrada obra que a tantos tem inspirado.
Baleia! Baleia! é ainda, e acima de tudo, uma tomada de posição e um apelo. Meu irmão, não as mates, pendura o arpão e demais palamenta no Museu. Quando as vires desde a rocha alta, deixa-as soberanas e livres como tu sulcarem o mar da ilha, de todas as ilhas…
Fátima Madruga - Museu dos Baleeiros - PicoTuesday, May 15, 2007
Porque por vezes naufragamos - II
Ao chegarmos perto do Faial, mais precisamente perto do farol da Ribeirinha, começaram a ser avistadas, por fora do «Salão», lá no horizonte, várias velas brancas, quais pequenos triângulos no cimo das vagas. (…)
Poucos minutos passaram e poucas dezenas de metros tínhamos percorrido quando, na crista de uma onda, e no cavado da mesma, a um quarto de milha de nós, o mar começou a abrir, para surgir o dorso preto-acinzentado duma enorme Baleia a estender-se por cima do mar…
Não atirou o bufo como era habitual. Antes, deixou a água escorrer lentamente pela venta. Estava praticamente imóvel. A nossa posição podia ser considerada óptima; mas seria necessário que tudo se mantivesse, o que previ não ser muito provável. A Baleia tinha sido perseguida durante todo o dia. Estava desconfiada e escutava, procurando, sem respirar e sem se mover, ouvir qualquer ruído estranho. (…)
Sabia o risco que corria, tanto mais debaixo dum quase temporal (…). Sabia que, se conseguisse arpoá-la, seria quase impossível matá-la antes de a noite fechar. Teríamos de ficar ligados a ela toda a noite (…).
Vi o perigo, saltei do meu posto, soltei a adriça do pano, para o baixar… Só que era tarde! A refrega chegara e apanhara o pano na descida, fazendo dele balão. O bote adormeceu, começando a meter água! Íamos revirar?!...
E nisto, surgiu a uns seis metros de mim, o monstro tão desejado! Estávamos no cavado da onda e ela na crista, com a sua cabeça muito por cima da minha, vindo na nossa direcção, sem que pudéssemos fazer alguma coisa! (…)

foto: http://trilhosdelava.no.sapo.pt/
Hoje continua a ser possível partir à aventura e observar baleias e nadar com os golfinhos no mar dos Açores.
Porque por vezes naufragamos - I
Foto: Sérgio Ávila.
E lutava. Lutava agarrado ao esparrela, na ânsia de dominar a lancha, safá-la às vagas de través, tomar rumo de esperança naquele deserto negro de incertezas tumultuosas. Lutava – esgotando a carga de água que andava no poção, lhe lambia os pés, subia a meio das canelas. Lutava – por vencer os espectros do medo a borbulharem-lhe nas veias, a cocegarem-lhe no coração. (…)
Pobres! Pobres companheiros!
(…)
- Saímos onze do Cais do Pico (…) e quatro são os que restam. (…)
- E agora tudo se acabou!
- Não! Mil vezes não! Aqui, nada se acabou, porque tudo vai começar de novo!
- O homem, que é homem, não há nada neste mundo que o possa vencer, senão a morte. E nós estamos vivos! (…)

Dias de Melo, Mar Pela Proa, 1973
(em memória dos baleeiros que pereceram no desastre do canal)
Monday, May 14, 2007
O verbo no infinito - Vinicius de Moraes
Para poder nutrir-se; e despertar
E esquecer de tudo ao vir um novo amor
Friday, May 11, 2007
O meu olhar - Alberto Caeiro
O meu olhar é nítido como um girassol.
O Mundo não se fez para pensarmos nele
Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...
Thursday, May 10, 2007
Poeta - Adolfo Casais Monteiro
.
PARA O DUARTE:
As palavras - José Saramago
Wednesday, May 09, 2007
à flor da pele - Victor Rui Dores
Foto: Paulo César in http://www.olhares.com/ksardesfrutar o teu corpo
e dizer água do mar
ou úbere da terra
sentir
a suprema lentidão da língua
e abordar os lábios inquietos
e insaciáveis
...
apertar
as tuas mãos que me despem
na fúria salgada das marés
e dizer-te este desespero
de te possuir
rente aos lábios
...
eu existo
no mais íntimo de ti.
afogo-me no teu fogo
(e não sei de glória maior)
Victor Rui Dores in à Flor da Pele
Monday, May 07, 2007
.
Não cantarei o mar - Nuno Costa Santos
«(Não cantarei o mar: que ele se vingue
de meu silêncio, nesta concha)»
Carlos Drummond de Andrade
Não cantarei o mar
que me chega
por entre as árvores
neste nocturno regresso a casa
mas é neste instante
que percebo:
não sou das cidades
das donas
do casal que todas as manhãs
me vende os jornais
do homem da garagem
que às vezes não me cumprimenta
por timidez
das raparigas
que se vão substituindo
em frente aos croissants
no trimestral emprego da pastelaria.
Não cantarei o mar
mas é neste instante
que percebo
sou daqui
deste som de ondas batendo
deste tempo quieto, quase terno
desta espuma que
atravessa oculta
os eucaliptos
para me tocar
enfim o coração.
Nuno Costa Santos
(enviado por Olegário Paz)
Friday, May 04, 2007
Elegia - Emanuel Félix
Foto: António Manuel Pinto da Silva inhttp://www.olhares.com/t silva
voavam pássaros dos teus ombros
e o tempo era uma laranja azul
rolando nos teus dedos meninos
colhias no jardim os versos puros
da primeira canção
com flores breves e conchas
desenhavas
nas horas quase brancas
teu caminho de abelha
e uma andorinha tristemente vem
com um ramo de vento
pairar a tua ausência
Emanuel Félix in A viagem possível
Tuesday, April 24, 2007
Fala do homem nascido - António Gedeão
Foto: António Gama in http://www.olhares.com/gamaduVenho da terra assombrada,
do ventre de minha mãe;
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém.
Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui,
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci.
Trago boca para comer
e olhos para desejar.
Com licença, quero passar,
tenho pressa de viver.
Com licença! Com licença!
Que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo;
não tenho tempo a perder.
Minha barca aparelhada
solta o pano rumo ao norte;
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham,
nem forças que me molestem,
correntes que me detenham.
Quero eu e a Natureza,
que a Natureza sou eu,
e as forças da Natureza
nunca ninguém as venceu.
Com licença! Com licença!
Que a barca se fez ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar.
Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar.
António Gedeão in Teatro do Mundo
Friday, April 20, 2007
A realidade aqui...- Urbano Tavares Rodrigues
Há uma vela vermelha, insólita, a atravessar os carneirinhos no que se vê de horizonte e parece dirigir-se para a torre esfumada, quase inexistente, onde quero que habite algum faroleiro filósofo e solitário. (...)
A realidade aqui, nesta costa da saudade, supera sempre em grandeza as descrições que dela se façam, mesmo manchas tão impressivas como as que o Raúl Brandão nos convida a ler em Os Pescadores, tal, por exemplo, esta:
«Três horas da tarde. Céu limpo, mar manso, e sobre o mar uma chapada de pedra, sobre o verde, mil escamas a cintilar, que brilham, luzem e tornam a reluzir. O sol desce pouco a pouco, majestoso e sereno, no céu todo doirado e a luz forma uma estrada que liga o areal ao infinito, uma estrada larga, de oiro vivo, que começa a meus pés, na espuma ensaguentada e chega ao sol. Ó meu amor, não acredites na vida mesquinha, não duvides: dá-me a tua mão e vamos partir por essa estrada fora direitos ao céu!.»"
Thursday, April 19, 2007
Sou do tamanho do que vejo
Saturday, April 14, 2007
tenho aquela que me olha e que olho - josé luís peixoto
Foto: Mateus Moreno in http://www.olhares.com/mcm250680tenho aquela que me olha e que olho
e misturamo-nos como brisas e
silêncios e digo tenho aquela que
me vê e ela olha-me e tudo o
que somos é uma partilha uma
mistura e digo diz e aquela que
tenho beija-me num olhar e num
silêncio que não posso dizer
Tuesday, April 03, 2007
Verde que te quero verde - Lorca
Sinto o abraço mineral dos montes
que me envolve o corpo e me faz planta.
Saio da galáxia da cidade
e transformo-me no ar em coisa leve:
deixo de falar e apenas vivo.
Então eu sou, e os pássaros flutuam
por cima dos pinhais. Sou eu, verde
no verde que cobre o dia inteiro.
Transformo-me em ausência, vou-me embora
coberta de flores ainda em botão.
Sou eu enquanto alcanço a terra
e os montes me dizem o que são.
Federico Garcia Lorca (enviado por Olegário Paz)
Friday, March 23, 2007
num momento de paz - a. gualdino correia
procurei ver o indizível das coisas
saber o que sou nas horas de prazer
saber o que sinto nas horas de sofrer
ler, ver, receber a luz do papel contrastado
perceber onde me escondo da vida,
que lugar é esse, a vida,
e onde se esconde ela de mim,
saber o porquê de ter o conhecimento em mim
e não ter a cor que dá sentido a esse saber...
cortei-me no papel do ser vezes sem conta
dores agudas de golpes invisíveis
na pele que arde, nas mãos que escrevem
nas mãos que tocam, nas mãos que pedem
na ânsia de querer
no querer ardente de uma vida sonhada
composta de desejo, de sentimento, de alma
o sofrimento existe para lembrar
que o homem pode ser feliz, uma vez...
Thursday, March 22, 2007
E de novo acredito... - M. Sousa Tavares
Foto: Helder Freitas in http://www.olhares.com/SaxMarTuesday, March 20, 2007
Por quem os sinos dobram
Nenhum homem é uma ilha, completa em si;
Cada homem é um pedaço do continente, uma parte do todo.
Se um torrão for arrastado pelo mar,
A Europa fica diminuída, como se de um promontório se tratasse,
Como se da casa dos teus amigos ou da tua se tratasse;
A morte de qualquer homem diminui-me,
porque sou parte do género humano;
E por isso, nunca perguntes
por quem os sinos dobram;
Eles dobram por ti.
Saturday, March 17, 2007
Movimento de partida - João de Melo
Wednesday, March 14, 2007
Pico - Manuel Alegre
Gostava de aprender a linguagem do peixe.
O recado do golfinho para o golfinho
A fala da baleia.
Ou o grito da gaivota para a gaivota.
O som inarticulado de qualquer latido.
Ou o simples zumbido. Ou o silêncio
carregado
de sinais.
Talvez então o sentido primordial.
O ritmo inicial e iniciático do poema.
A batida do mar. A batida do vento.
A batida da terra.
ILHA DE BRUMA
Eu buscava uma ilha sobre o vento e a espuma
a que só era de ser a sempre ausente
ilha nenhuma.
Agora tenho-a à minha frente
ilha de bruma
Buscava um lugar santo um canto um cântico
um triângulo mágico uma palavra um fim.
E vejo um grande pico sobre o atlântico
e uma ilha a nascer dentro de mim.
in Pico - Manuel Alegre
Livre-arbítrio - José Eduardo Agualusa

Tuesday, March 13, 2007
O gémeo e a sombra - João de Melo
Friday, March 09, 2007
14. Cubro toda a terra daqui...
Cubro toda a terra daqui.
Dizem que é o efeito das ilhas, já o pressinto.
As nuvens enegrecem no canal enquanto te digo isto.
Há também algo de nocivo nisso, eu sei. Tu sabes.
Talvez venha a tornar-se a voz numa sombra - é o
que dizem, ao chegar a estação das beladonas.
Foi após embarcares que senti tudo isto,
que comecei a confundir a noção dos dias,
o tempo que trazemos nos relógios.
Chego a tremer com o silêncio no planalto,
com o cheiro a cânhamo das furnas e
da neblina limosa formando-se em torno delas.
Acontece-me ter perdido alguns nomes,
outros lugares parecem-me vagos,
ausentes noutro corpo talvez esquecido, em extinção.
Mas descansa não é por vontade, é mesmo assim, já tinha dito.
É talvez porque o que fomos se apagasse e
só pudéssemos esperar
e uma sombra nos cresça na voz, cada vez mais.
Tu dirás isso por aí à tua maneira, se
quiseres - já agora não o esqueças.
Vou ficando semanas seguidas cá em cima,
sem descer à costa.
Aqui aguardo me tragam as cartas, as tuas,
e não julgues que não dei conta dessa angústia.
Se soubesses como me parecem sempre um eco, o
presságio de um mal que está para acontecer.
Mas não são sempre elas isso mesmo,
uma voz sustendo-nos, um
medo na parte mais desconhecida da memória?
Agora enquanto te digo isto as nuvens enegrecem o canal,
a tarde ficou mais bela, como só aqui pode ficar
com o vento que sopra do norte, da graciosa.
Tu sabes como sempre estas coisas me impressionaram:
a ressonância do ar cá em cima, o mar
escuro longe da costa, além de todo o possível,
a rebentação das ondas nos baixios para depois invadir as praias.
Mas além de tudo este silêncio oferecido no caule das hortências,
esse silêncio impedindo a aproximação do
mar a toda a volta.
Já te disse como aprendi a desconfiar do mar.
Da sua deriva invisível de um ao outro lado da ilha
como um perigo,
e fosse preciso agarrarmo-nos ao cais para não cairmos.
Já te disse que não há outro lugar para se saber isso,
outro lugar de onde se cubra assim
toda a terra.
Tenho cuidado do viveiro, tal e qual me ensinaste,
lá vou escrevendo uma ou outra coisa devagar, se a isso leva.
O lúcio passa de quando em vez de
caminho para o norte grande.
Vai ficando por um ou dois dias, quando insisto.
Fala-me muito das ilhas e das pequenas histórias,
das araucárias que chegaste a ver, da
urzelina e da vila que ficou submersa com a lava, menos a torre,
das pequenas baleias que se passeiam ao longo da costa
como no belíssimo livro do tabucchi, que te contei.
Tudo está aqui ligado, no fundo - mas isso já nós sabemos.
Por isso cubro toda a terra daqui.
Olha,
um barco vem descrevendo agora a sua rota no canal.
Conheço-o daqui tão bem no seu silêncio.
Foi nele que chegámos.
Foi nele que partiste.
E sabes, no que mais tenho pensado é nisso,
no significado das rotas,
no que eles têm a ver com tudo isto que te conto,
com o que nos conduz na vida e não sabemos.
Há um mistério nisso. Tu também sabes.
É o maior mistério e não podemos persegui-lo.
Como se nos afastássemos e só pudéssemos esperar
e fosse mesmo isso o que está certo.
Sim, cubro toda a terra daqui.
Outro dia abri a semente vermelha do café raro
e percebi que não quero sair nunca mais.
Talvez te custe saber isto, não sei. Se
calhar custa-me mais a mim.
Por isso quero dizer-te que não posso partir.
Acho que a vida encontrou-me na tranquilidade certa,
a verdadeira, a que nos cerca como um nevoeiro.
E podia contar-te mais, se quisesses.
Agora entendo como devíamos contar a nossa vida
sabias?
Contar o que ela tem a ver com tudo isto,
dealbular por toda a nossa vida até aportarmos aqui,
vigiados pelas hortências,
cobrindo toda a terra.
Agora eu amo este planalto como não te amo a ti.
Porque amo-te apenas quando partiste.
Quando me deixaste na mão a certeza de te
esperar
e o dom de vigiar os navios e os cagarros.
Agora o vento cresce do mar pelo lado norte
e espero-te.
As nuvens enegrecem o canal, já tinha dito.
Assim ficarei até que chegues.
Até reconhecer o teu silêncio na inquietação das rotas.
Disseste que vinhas quando não esperasse a
tua carta.
E crê mais não ires pressentir do que a minha
sombra
lá pelo tempo das beladonas.
Rui Coias in A Função do Geógrafo
Thursday, March 08, 2007
Canto de mim mesmo - XLVI
A minha viagem é eterna, (venham todos ouvir-me!),
Os meus sinais são de uma gabardine, bons sapatos e um cajado que cortei no bosque,
Nenhum dos meus amigos se instala na minha cadeira,
Não tenho cadeira, nem igreja, nem filosofia,
Não conduzo ninguém à mesa de jantar, à Biblioteca, à Bolsa,
Só te conduzo a ti, homem ou mulher, a um outeiro,
A minha mão esquerda aperta-te a cintura,
A minha mão direita assinala a paisagem dos continentes e o passeio público.
Nem eu nem ninguém pode percorrer por ti esse caminho,
Deves percorrê-lo por ti mesmo.
Não fica longe, está ao teu alcance,
Talvez tenhas andado por ele desde que nasceste e não o saibas,
Talvez fique em toda a parte, na água e na terra.
Carrega os teus farrapos, meu filho, e eu carregarei os meus, apressêmo-nos,
Chegaremos a maravilhosas cidades, chegaremos às nações livres.
Se estás cansado, deixa-me levar os fardos, e põe a tua mão na minha anca,
E no devido tempo hás-de retribuir-me,
Pois já que partimos nunca poderemos descansar.
Hoje, antes do alvorecer, subi a uma colina e olhei os céus e as constelações,
E perguntei ao meu espírito: Quando abraçarmos essas orbes, quando tivermos
o prazer e o saber de quanto nelas há sentir-nos-emos realizados e satisfeitos?
E o meu espírito respondeu: Não, se alcançarmos esses cumes é só de passagem,
é só para continuar mais além.
Tu também interrogas e eu escuto,
Respondo que não posso responder, tens de descobrir por ti.
Senta-te um instante, meu filho,
Aqui tens bolachas para comer e leite para beber,
Mas logo que adormeças com a tua roupa fresca, dar-te-ei um beijo de
despedida e abrir-te-ei a porta para que partas.
Tempo que baste já sonhaste os teus sonhos maus,
Agora afasto as remelas dos teus olhos,
Deves habituar-te ao esplendor da luz e de cada momento da tua vida.
Muito tempo rondaste timidamente a praia agarrado a uma tábua,
Agora quero que sejas um nadador intrépido,
Que saltes no meio do mar, que te ergas outra vez, que me faças sinal, grites
e rias enquanto a água cai dos teus cabelos.
Walt Whitman in Canto de Mim Mesmo
Wednesday, March 07, 2007
Acho tão natural...
Que me ponho a rir às vezes, sozinho,
Não sei bem de quê, mas é de qualquer cousa
Que tem que ver com haver gente que pensa...
Que pensará o meu muro da minha sombra?
Pergunto-me às vezes isto até dar por mim
A perguntar-me cousas...
E então desagrado-me, e incomodo-me
Como se desse por mim com um pé dormente...
Que pensará isto de aquilo?
Nada pensa nada.
Terá a terra consciência das pedas e plantas que tem?
Se ela a tiver, que a tenha...
Que me importa isso a mim?
Se eu pensasse nessas cousas,
Deixaria de ver as árvores e as plantas
E deixava de ver a Terra,
Para ver só os meus pensamentos...
Entristecia e ficava às escuras.
E assim, sem pensar tenho a Terra e o Céu.
Alberto Caeiro
I start to laugh sometimes, all alone,
I don’t really know why, but it’s about something
To do with knowing there are people who think...
What is my wall thinking about my shadow?
I ask myself this sometimes until I notice
I’m asking myself things...
And then I get mad at myself, and feel uncomfortable
Like when my foot falls asleep...
What does this think about that?
Nothing thinks about anything.
Does the earth have consciousness of its stones and plants?
If it did, it would be people. . .
Why am I worrying about this?
If I think about these things,
I’ll stop seeing trees and plants
And stop seeing the Earth
For only seeing my thoughts...
I’ll get unhappy and stay in the dark.
And so, without thinking, I have the Earth and the Sky.
Wednesday, February 28, 2007
Apresentação
Cabeça - Amadeo de Souza-Cardoso Eu sou essa pessoa a quem o vento chama,
a que não se recusa a esse final convite,
em máquinas de adeus, sem tentação de volta.
Todo o horizonte é um vasto sopro de incerteza.
Eu sou essa pessoa a quem o vento leva:
já de horizontes libertada, mas sozinha.
Se a Beleza sonhada é maior que a vivente,
dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho?
Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.
Pelos mundos do vento, em meus cílios guardadas
vão as medidas que separam os abraços.
Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:
"Agora és livre, se ainda recordas."
Cecília Meireles in De Solombra









































