Monday, November 16, 2009

talvez vendo com outros olhos se perceba o outro lado...

Thursday, August 20, 2009

limpidez de estrelas
à volta de uma fogueira nas fragas
magia de um tempo esquecido
em que a limpidez se reflecte nos rostos de todos nós
contadores de estórias infinitas
as mãos tacteiam o fogo
que do peito se solta
não creio que amanheça
a magia permanecerá em nós
minuto após minuto
dos rostos fracamente iluminados pelas labaredas
sonhos desgovernados na ponta dos dedos
calor que se aconchega às pernas
(e à alma)
tenho linhas e linhas de estórias para contar-vos
sob a viola do marco
palhaço que a vida transformou em todos nós
nas rédeas de um tempo solto
que a realidade jamais roubará
tenho estórias na ponta dos dedos
acolhe-as em tuas mãos
conta-as no teu sorriso dedilhado
o universo beberá as tuas impressões
impregnadas de bondade e anseios
são estes os momentos que permanecem
para sempre na memória inapagável de cada um de nós
são estes os momentos de magia
que mais tarde recontaremos em cada fogueira extinta
são estas as estrelas que levamos connosco
as estrelas e os sorrisos inocentes
que em nossos peitos permanecerão

md

Sunday, August 16, 2009

relembrei hoje na radio




valeria a pena relembrar mais vezes...

Friday, July 24, 2009

o negócio dos livros ou os absurdos da vida

Caso os autores ou seus herdeiros não os adquiram
Casa da Moeda pode ter de destruir milhares de livros

Várias centenas de milhares de livros editados há mais de quatro anos pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda (IN-CM) poderão ter que ser destruídos caso os autores ou seus herdeiros não os adquiram, reclamem ou permitam a doação.


Alcides Gama, director comercial da IN-CM, disse à agência noticiosa Lusa que a pretensão não é destruir livros, mas antes encontrar instituições, como bibliotecas, que os acolham, já que livros são "cultura". Não é porém possível que a IN-CM continue com todas aquelas obras em armazém porque ocupam um espaço "infindo", disse.

Para encontrar instituições que acolham as obras publicadas há mais de quatro anos e que não obtiveram sucesso comercial, a IN-CM está a encetar contactos com a Associação Nacional dos Municípios Portugueses (ANMP), câmaras municipais, Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, Ministério da Cultura e bibliotecas de Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP).

A oferta de livros a instituições acaba, porém, por levantar um problema para Alcides Gama: "Se as bibliotecas se habituam a receber os livros oferecidos acabam por não os comprar e os livros são feitos para ser vendidos", defende.


03.07.2009 - 11h38 PÚBLICO

Sunday, July 19, 2009

recado

assisto diariamente a uma colagem de peças desordenadas
não creio que o sentido se encontre
nessas névoas trespassadas
revolteios e revoltas
de quem nada sabe
e se perdeu

marta dutra

Saturday, May 09, 2009

destino



Ter um destino é não caber no berço onde o corpo nasceu, é transpor as fronteiras uma a uma e morrer sem nenhuma.

Miguel Torga, in Fernão de Magalhães, Antologia Poética. Lisboa: Dom Quixote, 1999.

Monday, April 27, 2009

Matadouros

Você sabe exatamente o caminho que a carne faz até chegar ao seu prato? Pois o biólogo Sergio Greif visitou vários matadouros e conta o que viu
Passei alguns de meus últimos anos no interior de São Paulo, fiscalizando fontes de poluição ambiental: usinas de açúcar e álcool, fábricas que processamento de polímeros, fundições etc. Mas nada me pareceu tão poluente e agressivo quanto os curtumes e abatedouros de animais. Estas atividades são, é claro, extremamente poluentes, mas pretendo falar sobre este assunto em outra ocasião. Gostaria de reservar este momento para falar sobre uma outra forma de violência, aquela que presenciei nos matadouros e abatedouros de animais.
Embora o sofrimento do animal que será abatido se inicie já em seu nascimento, é no matadouro que ele encontra o seu fim. Não é um fim agradável, tranqüilo ou sem dor, como muitas pessoas querem acreditar. As pessoas são levadas a crer que os animais que lhes servem de alimento levaram uma vida de prazeres, brincando nos campos com outros animais de fazenda e que em determinado dia estes foram transportados e abatidos de forma indolor. Esta é a imagem que a indústria da carne nos passa, com suas propagadas de animais sorridentes e suas embalagens coloridas que quase não sangram.
As pessoas não acreditam, ou não querem acreditar, que animais de corte tiveram toda uma existência miserável, privados da luz do sol, do ar fresco, de pisar a terra. O objetivo de uma criação de animais de corte não é, é claro, o bem estar dos animais. O objetivo é lucro, produzir mais carne, em menor espaço e no menor tempo possível. Desta maneira ovinos, suínos e frangos são criados em locais com alta densidade de indivíduos, em espaços mínimos que limitam seus movimentos e o desempenho das atividades mais básicas, características de suas espécies. Os bovinos ainda são criados de maneira extensiva no Brasil, mas esta realidade tende a se alterar com o aumento na demanda e profissionalização do setor.
Descrever o que acontece em um matadouro não é uma tarefa fácil. Provavelmente ler sobre o que lá se passa também não seja, mas acredito que temos a obrigação de divulgar estas verdades, e desfazer os mitos que se formam, de que os animais não sofrem com o abate. Todo aquele que se alimenta de animais tem o dever de conhecer este último e importante passo na vida da comida que tem em seu prato. As descrições que se seguem representam o que pude presenciar do abate de animais. Quando forem citados procedimentos diversos aos quais presenciei, farei menção a isto.

Matadouros de Gado

Os animais são transportado em caminhões de transporte de gado, geralmente contendo 12 animais, que tentam se manter em pé enquanto o veiculo se desloca. Os animais são geralmente trazidos de fazendas próximas ao abatedouro, mas em alguns casos provêm de localidades mais distantes, o que significa que este transporte pode durar várias horas. O caminhão adentra o matadouro e os animais são descarregados a chutes e pontapés em um terreiro cercado (imagino que eles foram colocados no caminhão também na base do chute). Neste terreiro os animais ficarão à espera por algumas horas, pois os abates quase sempre ocorrem durante a madrugada.
Não pude presenciar a hora em que o abate começa, devido ao horário, mas imagino que os animais são enfileirados no corredor que leva à sala onde serão abatidos. Nas primeiras horas da manhã é evidente o estresse que estão vivendo os que ainda esperam a vez de entrar na sala do matadouro, pois estes presenciaram a morte de todos os animais que foram na frente. Seus olhos aparecem saltados na órbita, bem irrigados de sangue, e seus mugindo são desesperados e frenéticos.
Estes animais ouviram o que aconteceu com os animais que foram à sua frente, sentiram o cheiro de seu sangue e possivelmente viram alguma cena desagradável, é claro que resistem até onde podem para não passar pelo corredor que leva à sala do matadouro. Por este motivo, um funcionário do estabelecimento os força a fazê-lo dando chutes e eletrochoques através de uma vara. O animal vivencia um verdadeiro pânico, e tenta recuar, mas é empurrado para a frente pelo animal que vem atrás, que também está levando eletrochoques. Ele tenta se jogar para os lados, mas as barras de aço só lhe permitem que avance para a frente.
Ao entrar na sala do matadouro, o animal presencia por cerca de um minuto o que está sendo feito com seus companheiros, alguns já pendurados, alguns sendo fatiados em diferentes processos, seu sangue e suas tripas espalhados pelo chão da sala. O animal em vão tenta escapar, mas está completamente cercado por barras de aço. Neste momento o animal sofre o processo que se chama “insensibilização”. No caso dos matadouros que estive visitando, esta insensibilização é feita com uma pistola pneumática, mas em muitos matadouros a insensibilização ainda é feita a golpes de marreta. A pistola pneumática dispara uma vareta metálica no crânio do animal, perfurando-o até o cérebro. Diz-se que este é um método “humanitário”, pois o animal não sofre dor e permanece desacordado por todo o resto do processo, mas a verdade é que não podemos saber se aquele animal de fato não sentiu dor. Certamente a pistola o torna imóvel, mas o animal não parece desacordado, apenas atordoado e impossibilitado de reagir. Algumas vezes, um mesmo animal precisa ser insensibilizado mais de uma vez, o que mostra que este não é um método “humanitário” nem indolor.
No passo seguinte, o animal é pendurado de cabeça pra baixo em uma corrente, suspenso por uma das patas traseiras. É possível que neste momento o peso do animal trate de romper alguns de seus ligamentos, destroncar seus membros. No momento em que o animal é suspenso, percebo que sua cabeça ainda se move. O funcionário do matadouro diz que são espasmos, contrações involuntárias, que o animal já não pode sentir. Mas seus olhos ainda piscam, a língua ainda se mexe, tentando conter o vômito e puxar para dentro o ar. Este animal não está sentindo dor?
O animal é então sangrado, degolado, estripado e esfolado. O sangue que jorra é recolhido em parte para uns tonéis, mas a maior parte cai em uma canaleta. As fezes e o vômito são recolhidos em outra canaleta. Com enormes facas sua barriga é aberta e as tripas são jogadas no chão. Alguns animais ainda parecem se mexer nesta etapa e a impressão que tenho é que eles podem ver suas tripas no chão. O sangue e as tripas serão encaminhados para o setor de processamento de embutidos (lingüiças, salsichas, etc).
O couro destes animais que servem para a produção de carne não é considerado de boa qualidade, mas mesmo assim ele é retirado para uso menos refinado. Após isso o animal é baixado e são retirados os testículos, as mamas, patas e língua. Estas ‘peças’ são comercializadas como iguarias ou são encaminhados para o setor de ‘graxaria’, de onde sairá o mocotó e a gelatina.
Como os matadouros que visitei possuíam uma grande produção, uma “linha de desmontagem” como diriam alguns, pouca atenção era dada para cada animal e mesmo na etapa de retirada do couro e desmembramento, alguns animais ainda estavam se mexendo. Neste matadouro o couro é retirado quase completamente por uma máquina que parece uma máquina de fazer massas, o funcionário apenas tem que separar o couro em alguns pontos.
Finalmente, ocorre o corte seccional da “peça”. O animal é dividido em duas metades e a carcaça é lavada. Neste momento, dependendo da finalidade, o animal poderá ser retalhado em cortes ou sua carcaça poderá ser levada para o frigorífico. Quando a carne chega à câmara fria, o calor do animal ainda emana dela. As carcaças são penduradas em ganchos enfileirados e apesar do frio, o cheiro nauseante da carne é perfeitamente perceptível. Dali a carne seguirá para os açougues e mercados.

Matadouro de suínos

O abate de suínos é um pouco diferente do abate de bovinos. Alguns dos matadouros que conheci simplesmente não o faziam, outros reservavam um dia da semana para o abate de suínos e apenas um possuía um programa de abate constante de suínos. Os porcos são criados em sistema de confinamento, diferente do gado bovino no Brasil. Estes animais são criados em baias cobertas e muitas vezes ficam isolados do chão. Recebem ração de engorda e jamais tem a possibilidade de chafurdarem a terra, comer grama, etc. a idéia é que o animal receba alimentos calóricos e que gaste pouca energia movimentando-se. Desta forma o animal ganha peso em menor tempo. Nos últimos dias, os que antecedem o abate, o animal recebe menos ração e um ou dois dias antes recebe apenas água. Isto se dá para que na hora do corte, haja menos fezes transitando pelo trato digestivo, o que facilita a limpeza da carcaça do animal.
Os suínos chegam em um caminhão de transporte, em engradados empilhados em 4 andares, as fezes dos porcos de cima caem sobre os porcos de baixo e o cheiro do caminhão como um todo é insuportável, mesmo quando se está dirigindo atrás de um destes em uma rodovia, a 120 km/hora. No matadouro, os engradados contendo os animais são descarregados sem grandes cuidados. Os animais são forçados a saírem à base de pontapés ou sendo cutucados por porretes. No terreiro de espera, os animais ouvem o que se passa com os que já adentraram a sala do matadouro, e se desesperam. Não pude deixar de notar, em uma de minhas visitas a um destes matadouros, que em momento algum os porcos silenciavam. O tempo todo em que os animais aguardavam no terreiro, um funcionário do matadouro tentava acalmá-los, batendo-lhes com um porrete. Da mesma maneira, para que entrassem na sala de abate, os animais eram conduzidos com chutes e clavadas.
Na sala de abate o animal recebe um eletrochoque, que lhe causa uma paralisia, mas certamente não a sua morte. O animal é então suspenso por uma das pernas e degolado com uma faca (o sangue é recolhido para um tanque) e suas tripas são retiradas. Em seguida ele é mergulhado em um tanque de água fervente e depois é desmembrado. Devido à velocidade com que este processo ocorre, algumas vezes o animal é mergulhado ainda vivo e consciente na água fervente, e chega ainda piscando os olhos na mesa de corte e esfola.
Matadouro de aves
O abate de aves ocorre em estabelecimentos especiais denominados “abatedouros de aves”. Conheci abatedouros grandes, das maiores empresas nacionais e que vendem seus produtos para o mundo inteiro. Por este motivo, o fluxo de atividades nestes estabelecimentos é constante. Vê-se filas de caminhões trazendo frangos de diversas granjas para serem abatidos. Os animais são transportados em pequenas gaiolas contendo 5 ou 6 aves, muitas delas já chegam mortas devido ao estresse do transporte e ao tempo de espera. Presenciar o descarregamento destes animais é uma visão única. As gaiolas são abertas, e os animais são presos pelas patas, de cabeça para baixo, em ganchos presos a uma esteira. Os animais perecem não ter reação nenhuma. Certa vez vi a esteira parar para o almoço dos funcionários, algumas gaiolas já estavam abertas. As aves continuaram ali, mesmo as que saíram das gaiolas apenas se empoleiraram na grade, não tiveram o impulso de sair. Uma das aves que foi parar embaixo do caminhão ficou lá por mais de uma hora. Não é que estes animais não tivessem amor por sua própria vida, mas sim o fato de que jamais tiveram a oportunidade de exercitar seus músculos. A maioria daqueles animais tinha cerca de 45 dias de vida e foram criados para terem coxas e peitos macios e enormes, não para andarem por aí. Por este motivo, eram incapazes de dar mais do que alguns passos.
Nas esteiras, os animais são levados para a sala onde ocorre o abate. Ali recebem um choque de pequena voltagem, que deveria servir para atordoá-los, mas na verdade, apenas deixa as aves mais agitadas. Pergunto por que não aumentam a voltagem, desta forma as aves simplesmente morreriam ou seriam ao menos atordoadas. O gerente de produção me explica que se eles aumentassem a voltagem o animal de fato morreria, mas isto também endureceria a carne.
Elas seguem então para uma máquina que procede a degola automática e depois tomam um banho escaldante. São então depenadas e estrinchadas. Muitas vezes ainda estão vivos quando chegam a estas ultimas etapas, tendo sobrevivido inclusive à fervura. Presenciei inclusive animais que em uma ou outra fase do processo se soltam dos ganchos e caem no chão, ficando lá se debatendo. Os funcionários não fazem nada para abreviar seu sofrimento, pois não podem se desligar de suas atividades na esteira. Desta forma, a morte destes animais é ainda mais lenta e dolorosa.
Quem são os responsáveis por estas mortes?
Mesmo uma pessoa sensível, quando exposta a estas cenas durante cinco dias por semana, oito horas por dia, acaba se insensibilizando. Esta é a realidade do funcionário de um matadouro. Se estes são homens truculentos e rudes, é porque seu meio de vida os tornou assim. Certamente se estas pessoas conservassem sua sensibilidade, não seriam qualificados para seu trabalho.
Mas seu trabalho somente existe porque alguém os paga para fazê-lo. Então o funcionário do matadouro não deve ser visto como o único culpado pela morte destes animais. O proprietário do abatedouro tampouco, porque ele apenas mantém seu estabelecimento, já que alguém compra seus produtos. Os açougues e supermercados a mesma coisa. Apenas quem pode impedir que estas mortes continuem ocorrendo é o consumidor.
O consumidor sim, aquele que se sente desconfortável em visitar um matadouro, que prefere não saber a verdade, se poupar de vislumbrar estas cenas, que prefere esquecer que os pedaços de carne em peças eram um animal poucos dias antes. Este sim é o verdadeiro responsável.
Estamos prontos para nos indignar com a matança de bebês foca no Canadá, com a caça de raposas para fazer casaco de pele ou com o consumo de carne de cachorro na China. Estamos prontos para levantar bandeiras em defesa das baleias, da Amazônia ou doar algum dinheiro para o Greenpeace. E todas estas coisas de fato são importantes, mas estão muito distantes de nossa realidade. É fácil não ter um casaco de pele de raposa ou de foca, é fácil não ser culpado da morte destes animais e é mais fácil ainda condenarmos a pessoa que faz uso destes objetos.
Mas a morte de uma vaca, um suíno, um frango, ou seja lá qual for o animal, não deveria receber consideração diferente apenas porque sua utilização é tradicional segundo nosso ponto de vista. Qualquer pessoa que participe de seu ciclo de exploração é culpado pela morte de um animal, seja ele nativo, exótico, abundante ou esteja em vias de extinção. O fato de percebermos a criação e morte de animais em matadouros como um fato banal apenas agrava esta situação. Estes animais não viveram existências condizentes com os hábitos de sua espécie e em determinado dia foram abatidos no campo. Eles levaram vidas indescritivelmente sofridas e tiveram um fim doloroso. E se isto não está errado, nada no mundo está.
Não me tornei vegetariano por haver presenciado as cenas que descrevi acima. Eu já o era há mais de 20 anos. Haver visitado alguns matadouros e abatedouros de aves apenas serviu para fortalecer minha sensação de que eu estava no caminho certo. Saber que não faço parte disto, de certa forma, me confortava. Também me dava a certeza de que eu deveria dizer às pessoas o que vi, e da importância de se conscientizarem a respeito desses fatos.
Sergio Greif, biólogo, coordenador do Departamento de Meio Ambiente da SVB

ACHA QUE EM PORTUGAL É DIFERENTE?!?
Assista à reportagem:

Thursday, April 23, 2009

e não dizemos nada...

Na primeira noite, eles aproximam-se
e colhem uma flor do nosso jardim.
E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem,
pisam as flores, matam o nosso cão.
E não dizemos nada.

Até que um dia, o mais frágil deles, entra
sozinho em nossa casa, souba-nos a lua,
e, conhecendo o nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.

E porque não dissemos nada,
já não podemos dizer nada.

Maiakovski (1893-1930)


Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho o meu emprego
Também não me importei
Agora estão a levar-me
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

Bertold Brecht (1898-1956)


Thursday, April 09, 2009

o ser humano tem coisas que não lembra aos animais...

O Banco Alimentar contra a Fome, fazendo-se representar por um advogado, enviou um aviso ao Banco Alimentar Animal para que este mude o seu logotipo e designação, pois esta situação poderá ofender milhares de dadores e voluntários da Banco Alimentar contra a Fome, uma vez que cria a ideia de que "a contribuição e ajuda das pessoas mais carenciadas se poderá equiparar ao apoio a animais, o que não é aceitável."

Se eu até poderia compreender que a nível de marketing e publicidade pudesse ser inconveniente ao Banco Alimentar contra a Fome ser confundido com outra instituição, basear também essa exigência na legitimade maior ou menor das pessoas/animais é incompreensível.

Costuma vir-me à mente muitas vezes esta frase: o ser humano transporta-se a si próprio em tudo aquilo que faz; é por isso que nestas instituições/associações se originam tantos debates e quezílias. Ninguém deixa de ser quem é por pertencer a uma instituição de solidariedade social, pelo contrário, por vezes serve-lhe para exacerbar egos.

Não é esse o objectivo, nem o factor primário. Pena que se continue a verificar.

Felizmente há outros tantos que o fazem de coração. É com esses que estou disposta a trabalhar. Prefiro a ajuda anónima e desinteressada. Nessa tenho a certeza que vem o sentimento que nos preenche.

Saturday, April 04, 2009

crime

Tuesday, March 31, 2009

quando a última árvore tiver caído...



Quando a última árvore tiver caído,

Quando o último rio tiver secado,
Quando o último peixe for pescado,
Vocês vão entender que dinheiro não se come.
(Greenpeace)


Monday, March 09, 2009

Going somewhere?

- Where are you going?

- The same as you, I guess.
But before, I would like to see all the children smiling again, all the animals treated as they should be, the Planet free of money and power influences. Only kind and respectful people dreaming about a better future.

- In what world do you live?

Wednesday, March 04, 2009

Cálculos por cá...

Imaginem que todos os gestores públicos das setenta e sete empresas do Estado decidiam voluntariamente baixar os seus vencimentos e prémios em dez por cento. Imaginem que decidiam fazer isso independentemente dos resultados.
Se os resultados fossem bons as reduções contribuíam para a produtividade. Se fossem maus ajudavam em muito na recuperação. Imaginem que os gestores públicos optavam por carros dez por cento mais baratos e que reduziam as suas dotações de combustível em dez por cento.
Imaginem que as suas despesas de representação diminuíam dez por cento também. Que retiravam dez por cento ao que debitam regularmente nos cartões de crédito das empresas. Imaginem ainda que os carros pagos pelo Estado para funções do Estado tinham ESTADO escrito na porta. Imaginem que só eram usados em funções do Estado.
Imaginem que dispensavam dez por cento dos assessores e consultores e passavam a utilizar a prata da casa para o serviço público. Imaginem que gastavam dez por cento menos em pacotes de rescisão para quem trabalha e não se quer reformar. Imaginem que os gestores públicos do passado, que são os pensionistas milionários do presente, se inspiravam nisto e aceitavam uma redução de dez por cento nas suas pensões. Em todas as suas pensões. Eles acumulam várias. Não era nada de muito dramático. Ainda ficavam, todos, muito acima dos mil contos por mês.
Imaginem que o faziam, por ética ou por vergonha. Imaginem que o faziam por consciência. Imaginem o efeito que isto teria no défice das contas públicas. Imaginem os postos de trabalho que se mantinham e os que se criavam. Imaginem os lugares a aumentar nas faculdades, nas escolas, nas creches e nos lares. Imaginem este dinheiro a ser usado em tribunais para reduzir dez por cento o tempo de espera por uma sentença. Ou no posto de saúde para esperarmos menos dez por cento do tempo por uma consulta ou por uma operação às cataratas.
Imaginem remédios dez por cento mais baratos. Imaginem dentistas incluídos no serviço nacional de saúde. Imaginem a segurança que os municípios podiam comprar com esses dinheiros. Imaginem uma Polícia dez por cento mais bem paga, dez por cento mais bem equipada e mais motivada. Imaginem as pensões que se podiam actualizar. Imaginem todo esse dinheiro bem gerido. Imaginem IRC, IRS e IVA a descerem dez por cento também e a economia a soltar-se à velocidade de mais dez por cento em fábricas, lojas, ateliers, teatros, cinemas, estúdios, cafés, restaurantes e jardins.
Imaginem que o inédito acto de gestão de Fernando Pinto, da TAP, de baixar dez por cento as remunerações do seu Conselho de Administração nesta altura de crise na TAP, no país e no Mundo é seguido pelas outras setenta e sete empresas públicas em Portugal. Imaginem que a histórica decisão de Fernando Pinto de reduzir em dez por cento os prémios de gestão, independentemente dos resultados serem bons ou maus, é seguida pelas outras empresas públicas.
Imaginem que é seguida por aquelas que distribuem prémios quando dão prejuízo. Imaginem que país podíamos ser se o fizéssemos. Imaginem que país seremos se não o fizermos.
Mário Crespo, Jornal de Notícias

Vamos fazer uns cálculos simples...

- Reflexão enviada por um telespectador à CNN -

O plano de resgate de bancos com dinheiro dos contribuintes que ainda se discute no Congresso nos EUA, custará a impressionante cifra de 700.000 milhões de dólares; mais os 500.000 milhões que já foram entregues à banca, mais os milhares de milhões que os governantes da Europa entregarão aos seus bancos nesse continente.
Mas para tentar dimensionar um pouco as cifras envolvidas o telespectador fez o seguinte cálculo:

"O planeta tem 6.700 milhões de habitantes, se se dividisse - "só" os 700.000 milhões de dólares - entre os 6.700 milhões de pessoas que habitam o planeta, equivaleria a entregar-lhes 104 milhões de dólares a cada um."
"Com isso não só se erradicaria de imeditao toda a pobreza do Mundo, como automaticamente se converteria em milionários TODOS os habitantes da Terra."

Conclui dizendo: "Parece que realmente há um pequeno problema na distribuição da riqueza."

Sunday, March 01, 2009

Sabe o que come em Portugal?

Assista à reportagem:

(só é de facto cego quem não quer ver)


Touradas (ou acerca do fim das)

Viana do Castelo é oficialmente declarada a primeira “cidade anti-touradas” do país

É oficial. Depois de recentemente ter tomado uma decisão extraordinária no sentido de comprar a praça de touros local e de a transformar num centro de ciência viva, onde mais nenhum animal seria torturado, a Câmara Municipal de Viana do Castelo, na pessoa do seu Presidente, Defensor Moura, foi alvo de uma tremenda onda de louvor, agradecimento e apoio, nacional e internacional, gerada pela ANIMAL, que levou este autarca a declarar à comunicação social que acabar com as touradas em Viana do Castelo “foi a medida mais popular” que tomou, tendo recebido mais de mil mensagens de agradecimento e apoio vindas de todo o mundo.

Nessa mobilização de apoio e encorajamento, a ANIMAL apelou também a todos os seus membros e apoiantes que pedissem ao Presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo para dar o passo natural seguinte e vital, que seria declarar oficialmente a cidade de Viana do Castelo a primeira cidade anti-touradas de Portugal, deixando de autorizar a realização de touradas em espaços públicos da cidade e impedindo a realização destes espectáculos sanguinários em todos os sentidos em que o município o possa fazer. E foi isso que aconteceu ontem, quando o Executivo da Câmara Municipal de Viana do Castelo decidiu, como noticia o “Público” (leia a notícia “Viana do Castelo é a primeira “cidade anti-touradas” do país”, em http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1367028), dar esse fundamental passo, declarando esta a primeira cidade oficialmente anti-touradas de Portugal, juntando-se às 53 cidades e vilas espanholas e às 3 localidades francesas que já foram oficialmente declaradas cidades ou vilas anti-touradas pelos respectivos municípios.

Segundo noticiou o “Público”, “Para [Defensor] Moura, a medida faz todo o sentido por ir de encontro ao perfil de cidade saudável adoptado há mais de uma década, especialmente desde que o município integra as redes, portuguesa e europeia, de Cidades Saudáveis. Para além do respeito pelos direitos humanos, preservação do património natural e promoção dos valores ambientais, o executivo socialista considera que o espírito, de cidade moderna e progressista, deve estender-se ao respeito pelos direitos dos animais”. Ainda segundo noticiou este diário, o Presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo declarou que “A defesa dos direitos dos animais não é compatível com a realização de espectáculos de tortura, que provocam sofrimento injustificado”.

Thursday, February 26, 2009

Seja da Espécie...


"Vivemos com o que recebemos, mas marcamos a vida com o que damos." W. Churchill

Thursday, February 19, 2009

o que fizeram do mundo



o que fizeram do mundo parece
impensável aos olhos de uma criança

de esperança genuína e lágrimas límpidas
fizeram dela a imagem do desespero

não nos revemos neste vosso mundo adulto
de politiquice imunda
de dinheiros e sorrisos presumidos

é vosso o caixão que se desenha

e a terra podre que vos incendiará os ossos

(ninguém magoa uma criança impunemente)

Marta Dutra


Saturday, February 07, 2009

uma saudade


fOTO: Francisco Oliveira inwww.olhares.com/fraoli


há dias em que queremos dar tudo aos outros
mesmo aquilo que os nossos olhos não alcançam
há dias em que tudo parece pouco
a vida demasiado pequena
para abarcar toda uma experiência
fica uma saudade
de quem nunca mais veremos
e uma prece sentida
que se espera levada numa abraço

Wednesday, January 21, 2009

o fim da vida, João Pereira Coutinho


fOTO: conceição maia in www.olhares.com/rolo

"Não tenho filhos e tremo só de pensar. Os exemplos que vejo em volta não aconselham temeridades. Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não levam vidas descansadas. Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa ansiedade de contornos particularmente patológicos.
Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar. Hoje, não. A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis, e um exército de professores, explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição.·
Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida - mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em
progressão geométrica para o infinito.
É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho.

Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a mamar forte no Prozac. É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos.Quanto mais queremos, mais desesperamos.
A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade.O que não deixa de ser uma lástima.
Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne, saberiam que o fim último da vida não é a excelência, mas sim a felicidade!"

João Pereira Coutinho, jornalista

Monday, January 12, 2009

não existe crise

Thursday, January 08, 2009

Fim de Ano Comunitário no Retiro da Fraguinha: chuvoso e frio mas muitíssimo caloroso!

(fOTOS: Gualdino Correia)


















Retiro da Fraguinha: http://www.pesnaterra.com/

Sunday, December 14, 2008

Não sei se é amor...




Não sei se é amor
desejo
ou apenas
uma forma de morrer
tão diferente
e tão igual a tantas outras

Sei apenas
que me fazes falta
como se eu
fosse gaivota
e não houvesse mar
ou como se fosse
andorinha
numa
Primavera
interdita



Orlando Jorge Figueiredo
Dezembro 2008

Sunday, November 16, 2008

de José Saramago e da lucidez

Excerto de entrevista a José Saramago, Jornal de Letras

JL: A Viagem do Elefante é uma alegoria, amargamente irónica, da natureza humana?
JS: Sim. Todos nós damos vontade de rir. Somos uns pobres diabos. Usando um termos grosseiro: muita cagança, muita cagança e para quê? Somos pequeníssimos. Não é que uma pessoa tenha que aceitar a sua pequenez, mas parece-me bastante triste a vaidade, a presunção, o orgulho, tudo isso com que pretendemos ou queremos mostrar que somos mais do que efectivamente somos. Não será caricato ou ridículo, mas bastante triste.

[e ainda acerca do livro e do ter sido escrito durante o período em que esteve doente]

JL: Foi uma convulsão?
JS: Creio que sim, que se passaram coisas estranhas nesse período em que estive doente. Durante um tempo, talvez umas horas, um dia ou dois, apresentou-se-me, por exemplo, uma imagem com um fundo negro e quatro pontos brancos formando um quadrilátero irregular. Eram brilhantes como se fossem corpos celestes no espaço.

JL: Que pontos eram esses?
JS: Tive a certeza que esses quatro pontos eram eu.

JL: Imaginou essa espécie de transposição ou redução quântica?
JS: Não foi uma imaginação. Vi e soube que eu era aqueles quatro pontos. E tenho que dizer que isso não me pertubou nada. Para ser franco, até tenho pena de os ter deixado de ver.

JL: E como teve a certeza de que era esses pontos?
JS: Não havia traços fisionómicos, apenas a consciência de que podia estar reduzido a esses quatro pontos, que a complexidade física e mental do ser humano se poderia reduzir a esses pontos que nem sequer eram regulares.

JL: O que descreve parece a experiência absoluta da relativização da existência diante da morte.
JS: É uma espécie de total despersonalização. Eu tinha deixado de ser quem julgava que era, ao mesmo tempo que me reconhecia nesses quatro pontos. Como é que isso se produziu, não me perguntem.
(...)

Wednesday, November 12, 2008

perguntas feitas a crianças






COMO DECIDIR COM QUEM CASAR?


Precisamos de procurar alguém que gosta das mesmas coisas. Se tu gostas de futebol, ela também deve gostar e quando estás a ver um jogo ela deve trazer-te batatas fritas e cerveja.

Alfredo 10 anos



Niguém decide sózinho com quem casar. Deus decide por nós muito tempo antes e só temos é que aceitar.


Cristina, 10 anos




QUAL É A MELHOR IDADE PARA CASAR?

A melhor idade para casar é aos 23 anos, porque assim já conheces o teu marido pelo menos há 10!

Camila, 10 anos



Não existe a melhor idade para casar. Tem de se ser muito estúpido para querer casar.

Fernando, 6 anos




O QUE TÊM OS TEUS PAIS EM COMUM?

Não querem ter mais filhos.

Ana, 8 anos




O QUE FAZEM DUAS PESSOAS NO PRIMEIRO ENCONTRO?

Os encontros são para as pessoas de divertirem e devem aproveitar para se conhecer melhor um ao outro. Até os meninos têm coisas interessantes para dizer se lhes prestarmos bastante atenção.

Luísa, 8 anos



No primeiro encontro, contam-se mentiras interessantes para conseguir um segundo encontro.

Martim, 10 anos




O QUE FARIAS SE O PRIMEIRO ENCONTRO NÃO DESSE CERTO?

Ía para casa e fazia de conta que tinha morrido. Melhor, mandava publicar nos jornais da da região que tinha morrido.

Carlos, 9 anos




QUANDO SE PODE DAR O PRIMEIRO BEIJO?

Quando o homem é rico.

Pamela, 7 anos



Quando se beija uma mulher, tem que se casar e ter filhos com ela. É assim a vida.

Henrique, 8 anos




O QUE TEMOS DE FAZER PARA QUE O CASAMENTO TENHA SUCESSO?

Temos que dizer à nossa mulher que ela é linda, mesmo que se pareça com uma camioneta estampada...

Ricardo, 10 anos


~ onde é que eles vão buscar estas ideias?!? ~
Diapositivo 7

Diapositivo 10

Sunday, October 26, 2008

viver


fONTE: http://www.dramainnature.com/


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Monday, October 06, 2008

Renascer


























do mar
nasce o teu abraço

no teu porão
sonho
a vigília das noites futuras

neste barco
onde está escrita
toda a tua vida
as ondas devolvem-me
os segredos do teu olhar

não há lua
não há mar

apenas o cais
onde desembarco
e recomeço

Orlando Jorge Figueiredo

Saturday, October 04, 2008

no dia internacional do animal




Na Foto: Faísca, o espreguiça



Declaração Universal dos Direitos dos Animais

PREÂMBULO

Considerando que todo o animal possui direitos,
Considerando que o desconhecimento e o desprezo destes direitos têm levado e continuam a levar o homem a cometer crimes contra os animais e contra a natureza,
Considerando que o reconhecimento pela espécie humana do direito à existência das outras espécies animais constitui o fundamento da coexistência das outras espécies no mundo,
Considerando que os genocídios são perpetrados pelo homem e há o perigo de continuar a perpetrar outros.
Considerando que o respeito dos homens pelos animais está ligado ao respeito dos homens pelo seu semelhante,
Considerando que a educação deve ensinar desde a infância a observar, a compreender, a respeitar e a amar os animais,
PROCLAMA-SE O SEGUINTE:
Art. 1 - Todos os animais nascem iguais perante a vida e têm os mesmos direitos à existência.
Art. 2
1.Todo o animal tem o direito a ser respeitado.
2.O homem, como espécie animal, não pode exterminar os outros animais ou explorá-los violando esse direito; tem o dever de pôr os seus conhecimentos ao serviço dos animais.
3.Todo o animal tem o direito à atenção, aos cuidados e à proteção do homem.
Art. 3
1.Nenhum animal será submetido nem a maus tratos nem a atos cruéis.
2.Se for necessário matar um animal, ele deve de ser morto instantaneamente, sem dor e de modo a não provocar-lhe angústia.
Art. 4
1.Todo o animal pertencente a uma espécie selvagem tem o direito de viver livre no seu próprio ambiente natural, terrestre, aéreo ou aquático e tem o direito de se reproduzir.
2.toda a privação de liberdade, mesmo que tenha fins educativos, é contrária a este direito.
Art. 5
1.Todo o animal pertencente a uma espécie que viva tradicionalmente no meio ambiente do homem tem o direito de viver e de crescer ao ritmo e nas condições de vida e de liberdade que são próprias da sua espécie.
2.Toda a modificação deste ritmo ou destas condições que forem impostas pelo homem com fins mercantis é contrária a este direito.
Art. 6
1.Todo o animal que o homem escolheu para seu companheiro tem direito a uma duração de vida conforme a sua longevidade natural.
2.O abandono de um animal é um ato cruel e degradante.
Art. 7 - Todo o animal de trabalho tem direito a uma limitação razoável de duração e de intensidade de trabalho, a uma alimentação reparadora e ao repouso.
Art. 8
1.A experimentação animal que implique sofrimento físico ou psicológico é incompatível com os direitos do animal, quer se trate de uma experiência médica, científica, comercial ou qualquer que seja a forma de experimentação. 2.As técnicas de substituição devem de ser utilizadas e desenvolvidas.
Art. 9 - Quando o animal é criado para alimentação, ele deve de ser alimentado, alojado, transportado e morto sem que disso resulte para ele nem ansiedade nem dor.
Art. 10
1.Nenhum animal deve de ser explorado para divertimento do homem.
2.As exibições de animais e os espetáculos que utilizem animais são incompatíveis com a dignidade do animal.
Art. 11 - Todo o ato que implique a morte de um animal sem necessidade é um biocídio, isto é um crime contra a vida.
Art. 12
1.Todo o ato que implique a morte de um grande número de animais selvagens é um genocídio, isto é, um crime contra a espécie.
2.A poluição e a destruição do ambiente natural conduzem ao genocídio.
Art. 13
1.O animal morto deve de ser tratado com respeito.
2.As cenas de violência de que os animais são vítimas devem de ser interditas no cinema e na televisão, salvo se elas tiverem por fim demonstrar um atentado aos direitos do animal.
Art. 14
1.Os organismos de proteção e de salvaguarda dos animais devem estar presentados a nível governamental.
2.Os direitos do animal devem ser defendidos pela lei como os direitos do homem.
(*)A Declaração Universal dos Direitos dos Animais foi proclamada pela UNESCO em sessão realizada em Bruxelas, Bélgica, em 27 de Janeiro de 1978

Monday, September 29, 2008



a estupidificação e o entendimento crescem em conjunto


neste caso substituo a palavra entendimento por 'crescimento pessoal'.
e o que é isso de crescimento pessoal? mais um cliché na moda? onde proliferam livros e inúmeros cursos? não deveríamos todos ter ultrapassado a idade dos porquês?
- tudo isto pergunta a mente, o ser racional.

o EU e a mente são duas (chamemos-lhe) entidades distintas. é difícil compreender este conceito, mas quando integrado, faz-se luz.
aprendemos a distinguir entre mente/pensamento e sentimento/emoção/SER. a nossa natureza torna-se clara e o nosso objectivo também.

o nosso EU identifica-se de mais perto com toda a natureza e seres vivos e sente cada perda ou mal/dano infligido a cada ser vivo como um dano infligido a si próprio. o sofrimento do outro torna-se intolerável. é muito pouco tolerável também a tal estupidificação e embrutecimento de quem desumanamente mata, causa sofrimento dos mais variados modos a outras pessoas e animais e demais seres vivos.

a guerra torna-se um acto abjecto. incompreensível.


qual o objectivo de se ser senhor da guerra? e senhor da luta de poderes?


o ser humano engana-se e inicia jogos de consequências catastróficas para toda a humanidade.
e está convencido de que fica cá para todo o sempre a negociar e regatear os pedaços de terra em que dividiu o Planeta e a jogar com preços de acções e petróleo.

parece conversa de crianças e de concursos de beleza apelar à paz? meus amigos, que outro objectivo o desta estadia para além dela desfrutar preservando ao máximo o planeta que legaremos às gerações vindouras? que outro objectivo o da nossa estadia para além de passar o legado a alguém?
é que a vida acaba-se cedo. por vezes demasiado cedo... e quando há essa oportunidade, muitas pessoas pensam nos escassos momentos que por vezes antecedem a partida que se voltassem a nascer fariam tudo diferente.
o momento para tornar tudo diferente é HOJE.


isto tudo a propósito de quê?


da brutalidade que continua a existir contra os nossos animais, que desta vez bateu à porta de uma amigo meu, tendo encontrado mais um dos seus animais de estimação (o que seria o mesmo que dizer um dos seus familiares) morto por envenenamento.

a estupidificação e o entendimento caminham em conjunto. a esperança é que a primeira se transforme na segunda.

Wednesday, September 24, 2008

Dias de Melo


Nascido na ilha do Pico, Freguesia da Calheta de Nesquim, Concelho das Lajes do Pico, José Dias de Melo morreu hoje, aos 83 anos, após 50 anos de vida literária com várias obras publicadas, entre as quais PEDRAS NEGRAS, traduzida em inglês e japonês. Talvez como ninguém, Dias de Melo soube retratar e enobrecer a vivência picoense, em especial as gentes dos mares, os valentes protagonistas da saga baleeira. E a literatura do século XX perde um dos seus grandes nomes.

Sunday, September 14, 2008

ATÉ QUANDO?!?

Hoje li uma notícia antiga que me deixou sem palavras, tamanha a atrocidade. Deixou-me sem palavras, mas com vontade de vomitar. Foi esta a notícia no meio de tantas outras.



Um cão foi mutilado com uma máquina de ceifar, na passada terça-feira, em Cacia, concelho de Aveiro. O responsável pelo acto abandonou o cão sem assistência, tendo o animal morrido passadas 24 horas. O homem, que vivia em terrenos adjacentes ao local onde o cão se encontrava, não foi em momento algum ameaçado pelo animal, que tinha cerca de um ano e era de pequeno porte, garantem testemunhas. A GNR está a investigar o caso.

Armanda Pinto Ribeiro, de 50 anos – voluntária de três associações de defesa dos animais e que vive perto do local onde o cão foi mutilado – foi contactada pela dona do animal quando esta percebeu, passadas mais de 15 horas, que ele ainda estava vivo. As duas levaram o cão à clínica Planeta Animal, em Aveiro. Aqui, o animal foi assistido, tendo chegado a ser preparado para uma cirurgia com o objectivo de lhe serem amputadas as quatro patas, mas acabou por não resistir à extensão dos ferimentos e ao número de horas que ficou sem assistência.

"Sabemos quem foi o indivíduo que fez isto. Ele tinha ordens para cortar a erva do terreno, que pertence a umas pessoas de Lisboa, e quando foi para lá com a máquina de ceifar, viu o cão e mutilou-o. Ele fez de propósito, por crueldade. Ele até teve que fazer marcha-atrás com a máquina, para passar por cima do cão. O animal tentou fugir, num primeiro momento, mas depois deve ter ficado desorientado, com o barulho, e acabou por ser apanhado".

"No fim ele ainda se virou para a dona, que assistiu a tudo sem poder fazer nada, e disse-lhe 'O teu cão, esquece, ficou arrumado!'", indicou ainda Armanda Pinto Ribeiro ao PÚBLICO, confirmando que o cão era de pequeno porte, tinha cerca de um ano, e não era ameaçador.

Os donos do animal dirigiram-se à GNR para apresentar queixa, onde lhes terão solicitado os documentos de registo do animal e o boletim de vacinas, que o animal não tinha, como explicou ao PÚBLICO o tenente comandante Faria, do destacamento da GNR de Aveiro.

Para apresentar queixa deveriam ter os documentos", diz, acrescentando que esta acabou por não ser apresentada. "Ninguém recusou a queixa", garante o graduado. Mas confirma, após a questão lhe ser colocada, que, havendo testemunhas que confirmassem que as pessoas em causa eram proprietárias do cão, isso bastaria para seguir com a queixa em frente, mesmo sem documentos.

A queixa sobre a agressão ao animal acabou por chegar depois à GNR pela linha SOS ambiente e o tenente comandante Faria afirma que "estão a correr as diligências levadas a cabo pela equipa de protecção da natureza e ambiente para apurar a verdade dos factos e definir se existe matéria contra-ordenacional ou criminal".

De acordo com informação disponível no site da associação ANIMAL, a violência contra animais é punível com coimas cujos valores podem variar entre os 500 e os 3740 euros. Mas Miguel Moutinho, da associação, explica que a agressão a animais não consta como crime na legislação portuguesa. E que a única maneira de punir criminalmente quem agride é encarando a agressão como um crime de dano de propriedade. Para isso os donos têm de ser identificados como tal. O caso passa então para a esfera do Ministério Público, a quem se pode apresentar a queixa directamente.

"Se for um cão vadio não se trata de um crime. A legislação portuguesa não tipifica como crime um único acto de violência contra animais. Mas aqui há crime de dano, a propriedade de alguém foi destruída. Sem dono, a agressão leva a uma mera contra-ordenação. E se o agressor não tiver dinheiro fica tudo na mesma", explica Miguel Moutinho.

26/06/2008 Fonte: www.cacia.pt

E sobretudo, faça rimas ricas, ainda que de realidades pobres

Texto escrito em 06/08/07


Há textos que não aduzem à alocução mental produtiva.
Nem margens dão a um laivo de reflexão limitada.
São pensamentos pobres colhidos em terra improdutiva.
Idéias verdes, não maduras, que não aguardaram serem colhidas.
Sementes de frutos nobres que jamais foram cultivados.

Mas toda idéia, que por natureza é perecível,
É também grávida da dádiva de ser reciclada.
Manifeste-se em palavras, com mestria, sem academicismos.
Misture, mescle, pinte idéias e símbolos prenhez de aforismos.
E sobretudo, faça rimas ricas, ainda que de realidades pobres.
Pois é da palavra simples que sai de ti,
Que se alforria da alma a tua parte mais nobre.

Martius de Oliveira

Monday, September 01, 2008

em Retiro

ainda existem sítios assim. onde o tempo pára e apetece ficar num aconchego.


Retiro da Fraguinha - Serra da Arada - http://www.pesnaterra.com/

Pés na Terra - Turismo, Desenvolvimento Rural e Valorização Humana


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Xavier: o cão de guarda do sítio. conseguiu sobreviver ao rigoroso Inverno da serra sózinho, de finais de Janeiro a Maio.

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Monday, August 25, 2008

mensagem de Verão

ontem deixaram-me esta mensagem:

Olá Marta
Bom Verão
com emoção
e divertimento
no melhor tempo
que a vida dá
já que outra era
não sei se há!
Com belos sons
da natureza!
sempre quem dera
na certeza que tudo é belo
tanto espero!
Beijos
Angelino
obrigado meu amigo poeta.

Friday, August 22, 2008

das férias o regresso


Castelo Branco - Faial - fOTO: Gualdino Correia
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da janela do acordar - Pico - fOTO: Gualdino Correia
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apresentação do livro Vago - o Olhar - Horta

da esq. para dir.:

Dr. Luís S. Bento, Prof. Ermelinda Nunes, Prof. Maria do Céu Brito, Marta Dutra, Prof. Victor Rui Dores

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Saturday, August 02, 2008

Definição de Avó

Definição de Avó
Artigo redigido por uma menina de 8 anos e publicado no Jornal do
Cartaxo.

'Uma Avó é uma mulher que não tem filhos, por isso gosta dos filhos dos outros.
As Avós não têm nada para fazer, é só estarem ali.
Quando nos levam a passear, andam devagar e não pisam as flores
bonitas nem as lagartas.
Nunca dizem 'Despacha-te!'. Normalmente são gordas, mas mesmo assim
conseguem apertar-nos os sapatos.
Sabem sempre que a gente quer mais uma fatia de bolo ou uma fatia maior.
As Avós usam óculos e às vezes até conseguem tirar os dentes.
Quando nos contam historias, nunca saltam bocados e nunca se importam
de contar a mesma história várias vezes.
As Avós são as únicas pessoas grandes que têm sempre tempo.
Não são tão fracas como dizem, apesar de morrerem mais vezes do que nós.
Toda a gente deve fazer o possível por ter uma Avó,sobretudo se não
tiver Televisão'.




Sunday, July 06, 2008

why

quanto vive o homem?

Quanto vive o homem, por fim?
Vive mil anos ou um só?
Vive uma semana ou vários séculos?
Por quanto tempo morre o homem?
Que quer dizer para sempre?
Pablo Neruda

Thursday, July 03, 2008

Tertúlia "A Poesia não tem nome"


A Pó de Ser e o Hotel Moliceiro têm o prazer de o convidar para a primeira Tertúlia Pó de Ser: “A Poesia não tem nome”, que terá lugar no dia 11 de Julho pelas 21h30, no Hotel Moliceiro, em Aveiro.

Desafiamo-lo desde já a trazer um poema (que poderá ser da sua autoria) e a partilhá-lo connosco.

Consigo esta festa de palavras transformar-se-á num poema!

As nossas saudações poéticas.

Pela Organização
Marta Dutra


Contactos: Marta Dutra – martadutra7@gmail.com / 919297478/ www.martadutra.blogspot.com
Pó de Ser - casa.do.po.de.ser@gmail.com / 966993861 / 914812321 / 912224447/ www.encontrosterapeuticos.blogspot.com

Monday, June 30, 2008

formas distintas de envelhecer

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Envelheço antes de tempo

Lamento as coisas que não disse
e os projectos que não realizei
numa segurança afinal insegura
Os meus dedos já não têm cor
os meus olhos deixaram de ver
perdi a noção das coisas evidentes
Como eu lamento não ter sido capaz
de ser eu própria
presa a convenções e opiniões
O meu corpo já não acompanha
as viagens que realizo aqui sentada
A realidade é esta: envelheci!
e só agora o percebo
quando as minhas pernas não me levam onde quero
quando me esqueço de quem sou

Marta Dutra in Vago - o Olhar

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Hoppipolla music video by Sigur Ros
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Wednesday, June 25, 2008

Aguarela

fOTO: F. Monteiro in http://olhares.aeiou.pt/utilizadores/detalhes.php?id=22985


Campos de Aveiro.
Manchas verdes de arroz,
E a vela dum barco moliceiro
Que um pirata ali pôs.

A servir de moldura,
O velho mar cansado;
E um céu alto a descer e a ter fundura
Na quilha reluzente de um arado.

Miguel Torga

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Thursday, June 05, 2008

Revisitando Torga - II

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São Leonardo de Galafura

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Coimbra, 1 de Janeiro, de 1943

Outro ano. Toda a gente excitada, e, de conhecido para conhecido, esta senha:

- Boas entradas!

- Igualmente! - responde o contemplado. E lá segue cada qual o seu caminho, com o supersticioso pé à frente, não vá o demo tecê-las.
A estafada e monocórdica ária de sempre, que apenas moi os ouvidos de quem é por condenação um rói-migalhas, e passa o tempo a reparar nas inocências do homem, e a registá-las.

Ano Novo! Os torcegões que a realidade sofre nas nossas mãos, a ver se conseguimos disfarçar-lhe a crueza! A imaginação colectiva aos sobressaltos, na grata ilusão (na triste ilusão) de que a coisa vai começar agora, - agora que o ano é novo, o século é novo, a idade é nova. No fundo, todo o passado é um erro para cada um de nós. E como ninguém é capaz de aceitar corajosamente os erros e de fazer deles um roteiro de sinceridade, contorna-se o problema desta ingénua maneira: recomeçar. Sem nos querermos convencer de que nada pode deixar de ser como é, porque continuamos os mesmos e, só errado, o caminho é bonito e nos apetece. Recomeçar uma, duas, cinquenta vezes, e chegar à meta com este lamento hipócrita na boca: -Ah, se eu voltasse aos vinte anos e soubesse o que hoje sei!

Que me lembre, apenas Raúl Brandão teve a grandeza e a lealdade de escrever que repetiria o calvário da vida sem lhe alterar o itinerário. Isto sim, isto é de quem entendeu a fundo que a existência não deve ter soluções de continuidade, nem ser prevista. (...)

Miguel Torga, Diário II

Thursday, May 15, 2008

tenho fome

tenho fome de uma comida que não se mastiga. tenho fome de terras e de gentes. tenho fome de lugares inéditos em que os dias pararam e a sorte lhes sorri. tenho fome de intocáveis segredos e rostos presentes. tenho fome de dias e dias em que uma chuva miudinha nos sussurra "vai corre que o mundo se abre; vai corre que os mares são teus". tenho saudades de ventos e passados por concretizar. são meus os dias desencontrados que lês. são meus os pontos que apagas ao longe a cada adormecer. são meus os passos que se desencontraram dos dias. são meus e é minha esta fome de tudo o que a voz do corpo não sustém nem apazigua.

marta dutra

Saturday, April 26, 2008

a morte choca-me sempre

a morte choca-me sempre. sobretudo uma morte não esperada. aliás, a morte choca-nos a quase todos. por razões diferentes talvez. desde o desconhecido ao sentimento de perda por alguém que nos é querido. não era este o caso. conhecia-o apenas de passagem. um miúdo que se suicidou com um tiro na cabeça. e acabou. assim se acaba. morrendo.

ou talvez se renasça.

Thursday, April 17, 2008

Trovante - Peter's

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Wednesday, April 16, 2008

Cântico Negro de José Régio


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Friday, April 11, 2008

Revisitando Torga - I

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fOTO: Manuela D. L. Ramos - http://dias-com-arvores.blogspot.com/



S. Martinho de Anta, 5 de Março de 1934

Como a gente se perde! A linguagem que o meu sangue entende - é esta. A comida que o meu estômago deseja - é esta. O chão que os meus pés sabem pisar - é este. E, contudo, eu não sou já daqui. Pareço uma destas árvores que se transplantam, que têm má saúde no país novo, mas que morrem se voltam à terra natal.

Miguel Torga, Diário I

Wednesday, April 09, 2008

Retrato Talvez Saudoso da Menina Insular

Tinha o tamanho da praia
o corpo era de areia.
E ele próprio era o início
do mar que o continuava.
Destino de água salgada
principiado na veia.

E quando as mãos se estenderam
a todo o seu comprimento
e quando os olhos desceram
a toda a sua fundura
teve o sinal que anuncia
o sonho da criatura.

Largou o sonho nos barcos
que dos seus dedos partiam
que dos seus dedos paisagens
países antecediam.

E quando o seu corpo se ergueu
Voltado para o desengano
só ficou tranquilidade
na linha daquele além.
Guardada na claridade
do olhar que a retém.

Natália Correia, Retrato Talvez Saudoso da Menina Insular

Saturday, March 29, 2008

Arribo à Ilha...



Arribo à Ilha sob um céu acolchoado de nuvens densas. Só nos píncaros se acha embuçada de negrume a serra de Água de Pau. No sobejo da encosta, virada à cidade e ao aeroporto, escorre tinta azulácea, a cair no roxo. Mesmo mutilada, sinto-a revestida da majestade olímpica de deusa que ali persiste para escorar e dar sentido à paisagem de que participa. O casario da Lagoa detém-se num sorriso desabrochado, alumiando o fundo do horizonte. As chaminés das fábricas espetam-se no algodão churro da atmosfera abatida. Ando de Ilha às costas. Escorre-se-me em suor por todo o corpo. Sempre que se manifesta em pesadume exsuda e transpira-nos...


Cristóvão de Aguiar, Nova Relação de Bordo


Thursday, March 20, 2008

da Poesia hoje


Aqui onde me encontro o sino toca de quarto em quarto de hora. E hoje não o sei dizer de outra forma: este som que me invade e ecoa cá dentro como um gongo que me ensurdece.

Lembro: “A poesia não vai à missa,
não obedece ao sino da paróquia,
prefere atiçar os seus cães
às pernas de deus e dos cobradores
de impostos.
Língua de fogo do não,
caminho estreito
e surdo da abdicação, a poesia
é uma espécie de animal
no escuro recusando a mão
que o chama.
Animal solitário, às vezes
irónico, às vezes amável,
quase sempre paciente e sem piedade.
A poesia adora
andar descalça nas areias do verão.” (Eugénio de Andrade, A poesia não vai)

Penso: a poesia não tem definição, sente-se em todas as coisas. E hoje não a sei dizer de outra forma.

Saturday, March 01, 2008

ontem em Fânzeres - obra premiada: Vago - o Olhar

Ontem vivi um momento muito especial em Fânzeres num acolhimento enternecedor.

--
Sou eu aqui sentada no cimo da rocha, cuja silhueta os navios descortinam ao longe quando cortam aquela linha do outro lado do horizonte.
Sou eu aqui, o mundo a meus pés, ao antes, o mar. Fico nele e ele em mim. Sou apenas mais uma sombra que o céu tolera, sem asas de pássaro, sem pio, sem grito, sem esvoaçar. Sou apenas eu aqui sentada, eu e o mar, eu e o mundo, e talvez um navio que me veja ao longe.


Marta Dutra, Vago- o Olhar

17ª edição do Prémio Nacional de Poesia de Vila de Fânzeres

Thursday, February 21, 2008

fica em ti

certezas não tens
mas é teu o caminho
das estrelas
luas sóis e mares
de luz
é teu o universo
finito no teu corpo
é teu o abraço
para lá do tempo
fica em ti
uma voz doce
e uma calma que
apaga o lamento
fica em ti
um suave respirar
e uma esperança
sem fim

para a Natália

Wednesday, February 06, 2008

carnaval



registo carnavalesco avanca/ovar - marretas 2008

Thursday, January 31, 2008

biblioteca

gosto desta calma de biblioteca. deste sussurrar para não acordar os livros. mundos tão díspares que se interpenetram nas inúmeras prateleiras: o rio triste com o baile, o grão-mestre dos templários com confissões de uma farmacêutica, o sorriso aos pés da escada com o curral das bestas. loucura de quem escreve. loucura de quem lê. sussurro para não acordar os livros.



Thursday, January 24, 2008

dias desiguais

fOTO: Leonardo breviglieri gepp in http://www.olhares.com/leogepp

o olhar dos cães abandonados
o olhar dos cães às vezes
assemelha-se a um mineral escuro
a uma pedra funda e despedaçada
toca-nos como um olhar humano
como se desesperado daquilo
que não tem salvação
prende a alma
prende-a por muito tempo
às vezes penso que é a morte
que ali nos olha
apenas ela
à espera de alguém para mostrar-se
outras vezes esse mesmo olhar
é um fogo assustador
lavra do fundo dessas retinas pobres
acordando em nós
a angústia de sempre
aquela tão simples verdade que diz
- podíamos ser o contrário, ele e eu -
.
«Any Other Name», Thomas Newman
às vezes tropeçamos
na mais completa tristeza
- é sempre tão bela a tristeza -
algo toca dentro de nós
como um sopro subtil do tempo
antes um pouco
de marcar-nos para sempre
João Ricardo Lopes, dias desiguais

Cabeçudos e gigantones

Tua certeza eleva-se e recorta-se
no céu como um guindaste.
Hirta, metálica, adstringente e fria,
como a encontraste?

Se eu devesse guardar-te respeito por teres um sorriso amável,
por serem castanhos os teus olhos ou por pisares o chão de certa maneira,
então respeitaria também a tua certeza inabalável
e dela te pediria um farrapo para o arvorar em minha bandeira.

Faz-me pena a tua certeza como se tivesses sofrido um acidente,
como se te visse estendido num leito, impossibilitado de te mexeres.
Em tua certeza, cadeira de rodas, fazes-te conduzir piedosamente,
e os caminhos passam por ti sem tu passares por eles, e sem os veres.

Embrulhado na tua certeza, de rosto voltado para a parede,
adormeces sorrindo enquanto a vida, aos borbotões exulta.
Foguete de lágrimas, meandros sem rectas, catapulta,
veio de água que afoga e nunca mata a sede.

António Gedeão

Monday, January 07, 2008

Carta a Fátima

Lembras-te Fátima? era o que eu sempre te dizia, não somos nada nas mãos do acaso, e não há mais filosofia do que esta: deixar andar, tanto faz, hoje ou amanhã morremos todos, daqui a cem anos que importância tem isto, quem se lembrará de nós? quem se lembrará de mim? se nem tu já te lembras de mim agora, tu, a quem tanto amei, não te lembras, e foi há tão pouco, foi ontem, parece, que te levantaste e disseste: «Ficamos amigos como dantes»... E dizias: como dantes e era já noutro que pensavas, olhavas-me e nos teus olhos ria-se a traição, o prazer da liberdade, um desafio alegre, uma alegria provocante e desapiedada, ias a meu lado pela última vez e eu era já um estranho para ti, um fantasma a quem se concede, por caridade, uns momentos mais de companhia, algumas palavras vagas distraídas, um pouco de estima, talvez. Reparei: o teu corpo, oh corpo do meu prazer! oh carne virgem sangrando debaixo de mim! oh meu repouso e minha febre! o teu corpo outrora tão cativo e tão submisso, ficara de repente cerimonioso e esquivo, cauteloso, afastado, com um pudor forçado no puxares a saia sobre os joelhos, como se tivesse uma grande vergonha do despudor com que se dera antes...

Dizias: como dantes e não era já nisso que pensavas, e não era já para mim que falavas, eu era uma coisa para esquecer, para deitar fora, uma coisa que se abandona caída no chão e se perde sem pena. Dizias: «adeus» e saías da minha vida com um aperto de mão desembaraçado, quase cordial um gesto de boa camarada, como se nada tivesse havido antes, como se não tivéssemos sido tantas vezes na cama, um dentro do outro, um no outro, um-outro diferente, uma coisa sublime: Deus Criador, como os míseros humanos só ali o podem sentir e saber; um Outro que éramos nós ainda, mas tão transtornados, tão virados para fora de nós, tão esquecidos do mundo e de nós, tão eficazes, tão leais, nós boca com boca, corpo a corpo, um sexo torturando um sexo, mordendo-se devorando-se, numa febre de chegar ao fim depressa, ao esquecimento, ao repouso. Disseste: adeus e eu odiei-te logo nesse minuto, como te odeio agora, não por ti ou pelo teu corpo que já me esqueceu noutros que vieram depois, mas porque morri ali naquela palavra, -morri entendes? -, perdi-me numa grande confusão, esqueci-me de ser eu, fiquei roubado do meu passado.

Hoje, encontrarias um outro homem; havia de rir-me do teu corpo, da sua entrega ou das suas traições, de tu me dizeres: «Vem» ou «Adeus...», ou «Não quero...». Hoje, saberias quem fizeste com uma só palavra, conhecerias um outro homem, que é obra tua, minha segunda mãe! Hoje, havia de rir ou chorar, era a máscara do momento; mas diria: tanto faz..., tanto me faz... Sabia-o!

Saturday, January 05, 2008

da Caruma


ainda sinto e ouço a Caruma: "Minhas senhoras e meus senhores os carrumerros!" :-) e nós imbuídos nessa magia que aquece a alma... novos, velhos e crianças num espaço comum, num movimento compreensível a poucos. leitura da vida, evolução, descoberta interior, numa linguagem falada que parece mística ou talvez uma língua nova se tenha inventado pensa quem não a entende. ah! dêm espaço, queremos mostrar a possibilidade no meio de tantas vivências multifacetadas. ah! se não a entendes é porque talvez ainda estejas na dança dos casacos e egos. olha para além de ti, despe-o e voa!!!... só assim poderás perceber que as árvores também podem descer do céu... e deixar a poesia fluir, viver...
obrigado Madalena Vitorino

Friday, December 07, 2007

Somos folhas breves

Espaço curvo e finito

Oculta consciência de não ser,
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças e ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe, um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.


José Saramago, Os Poemas Possíveis

Tuesday, November 20, 2007

esboço


fOTO: Ricardo Costa in http://www.olhares.com/touchdelight

desenho-te um esboço
recortado
vislumbres
de uma criança
que te estende uma flor
e te segreda
a enormidade do mundo
a cada dia
um gesto
uma imagem
e um sol que se desprende
no olhar de uma criança
com um sorriso
e uma flor estendida

para o João Ricardo Lopes

reticências - João Ricardo Lopes

a cortina foi empurrada
um pouco para a esquerda
apenas um pouco, mal se nota.
ela, a do rosto, é bonita
mas não a direi assim:
di-la-ei antes pensativa, circunspecta
poisando os olhos decerto aí
ali, quem sabe no alvoroço de que esquina.
tem (terá) trinta anos ou menos.
menos, sem dúvida:
vinte e cinco talvez.
debaixo de algum glacial da expressão
vêem-se a espaços picos de luz
e são eles que esforçam por abrir
por ser a difícil clareira
contra razões tão cerradas.
a cortina voltou a tapar tudo
não se vê o rosto dela
não se sabe o quê, como ou porquê
somente isto, somente a noção
de que não existem pontos finais —
reticências quando muito


por João Ricardo Lopes

Friday, November 09, 2007

palavras para a apresentação do livro "dez anos de solidão"

fOTO: Hélder Freitas in www.olhares.pt
palavras para a apresentação do livro "dez anos de solidão" em santa maria, de Daniel Gonçalves
esta ilha é uma ilha de solidão mas não é a
ilha da solidão
esta ilha é uma ilha de solidão quando olha o
mar em sua volta
quando se fecha para dormir sobre a eternidade
quando se leva para fora no silêncio adocicado
de quem parte
esta ilha é uma ilha de solidão porque
queremos que assim seja
porque se ela pudesse abraçava-nos
pegava em nós e dava-nos o seu pico mais alto
para morarmos
e vermos que o mundo em volta é que é
pequeno
esta ilha é uma ilha de solidão e gosto dela
assim
quando me dá todo este tempo para reviver
quando me aproxima as coisas mais pequenas
desta boca que tem tanta sede
esta ilha é uma ilha de solidão mas não nos
deixa sozinhos
porque essa solidão é só mais uma maneira de
colorir o espaço em branco
o espaço em azul o espaço em verde
o espaço em cor de sonho a cor em espaço
esta ilha é uma ilha tão grande que cabe nela
toda a solidão do mundo
porque a solidão do mundo é do tamanho de
uma palavra
uma palavra que se tiver que rimar rima com coração
e rima com silêncio e rima com o outono e com
o inverno
e com a primavera e com o verão
e rima sobretudo com abraço porque o abraço
é que dá descanso à solidão
esta ilha é a ilha de todas as ilhas onde se
espera pela manhã seguinte
a ilha onde temos esta solidão virada do avesso
que é pensarmos que ninguém nos ouve
e ninguém quer saber em que parte do oceano estamos
esta ilha é a ilha de todas as ilhas que pensam
que são a ilha da solidão
e há tantas ilhas assim e tão mais pequenas
ilhas que às vezes trazemos fechadas nas
nossas mãos
esta ilha é tudo isto e tanto mais
porque nenhuma palavra sabe o que dizer
quando tem para dizer o que esta ilha tem
para dar
e só me apetece dizer que esta ilha é a ilha do
amor
e por ser assim é a ilha da poesia
e das aguarelas que mostram o lado de fora
por dentro do lado íntimo das coisas
e esta ilha somos nós
agora
com a solidão lá fora
à espreita do que estamos aqui a fazer
Daniel Gonçalves

Wednesday, November 07, 2007

Prémio Nacional de Poesia de Vila de Fânzeres

Foto: Emanuel Carreiro in www.olhares.pt
17ª edição do Prémio Nacional de Poesia de Vila de Fânzeres para a obra:

"Vago- O Olhar" - Marta Dutra (a ser editada em breve)

a todos os incentivadores, o meu obrigado!

Tuesday, November 06, 2007

CARUMA - Um projecto de arte comunitária



Caruma são folhas secas em forma de flecha que descem dos pinheiros, vestem o chão e picam. Caruma é um espectáculo com uma dimensão privada e outra pública, em que ambos os espaços se misturam numa paisagem que mexe.
É sobre o que está na margem e no centro.

Pessoas da rua, bailarinos e músicos põem o público em contacto com uma comunidade que é sua, confundindo-o e iluminando-o nessa ideia de unir o centro da sua cidade às margens da arte. O público, uma parcela dessa comunidade, revê-se e descobre-se, adiciona algo de seu ao espectáculo sem o saber previamente. Testemunha a transformação dos seus pares que nessa noite são outros.

Pequenos ninhos de público envolvem acções feitas em formato de concluios, conversas de saleta, solos dançados e contados, onde a intimidade da relação espectáculo/público se acende.
(...)
Caruma é um espaço para anjos nascidos na terra e humanos caídos do céu. Bailarinos, música, acções em catadupa saem de um tapete de caruma. Emergindo do centro da vida, recontam-se no fluxo de um tempo musical.

no CineTeatro de Estarreja

Friday, November 02, 2007

A FLOR

Rodrigo


Pede-se a uma criança. Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.

Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu.

Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.

Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor!

As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!

Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que deus faz uma flor!



Almada Negreiros

Tuesday, October 16, 2007

Os paraísos artificiais - Jorge de Sena

fOTO: Luís Caçador in http://www.olhares.com/lfcacador
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Na minha terra, não há terra, há ruas;
mesmo as colinas são de prédios altos
com renda muito mais alta.
Na minha terra, não há árvores nem flores.
As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem máquinas especialíssimas para desenraizar as árvores.
O cântico das aves - não há cânticos,
mas só canários de 3º andar e papagaios de 5º.
E a música do vento é frio nos pardieiros.
Na minha terra, porém, não há pardieiros,
que são todos na Pérsia ou na China,
ou em países inefáveis.
A minha terra não é inefável.
A vida da minha terra é que é iniefável.
Inefável é o que não pode ser dito.
Jorge de Sena (1947)

Friday, October 12, 2007

Para Sophie - João Ricardo Lopes

fOTO: Guido Caldeira in http://www.olhares.com/Guido

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Há sempre um exílio de que somos parte e não sabemos. E os dias que nele se arrastam trazem um rumor de mar para o fundo da alma. E são por isso dias de uma distância sem medida nem tempo, dias em que nos enclausuramos para encontrar as palavras certas com que havemos de dizer há sempre um exílio de que somos parte e não sabemos…


Sophie, estes são os contornos imprecisos das palavras e elas nada valem sem que nelas permaneças. Os dias que agora se arrastam trazem um rumor de mar para o fundo da alma. E a distância é como essa agulha de dor que nos dobra no pior dos silêncios e nos diz haver sempre um exílio de que somos parte e não sabemos e dias que se arrastam e hão-de arrastar em contornos imprecisos e palavras…


João Ricardo Lopes

por vezes as palavras não chegam

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Ballad of Sacco & Vanzetti : sublime!)

Thursday, October 04, 2007

eu nunca guardei rebanhos...

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol,
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
(...)

Alberto Caeiro

Sunday, August 26, 2007

caminha pelo teu corpo um silêncio como uma aragem

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fOTO: Rodrigo Ferreira in http://www.olhares.com/Neojag
caminha pelo teu corpo um silêncio como uma aragem
a terra estende-se infinita nos teus passos
ao passares o horizonte serás o último
e partindo de mim avanças


caminha pelo teu corpo um silêncio como uma aragem
onde o lugar das palavras que esquecemos?
se o nosso mapa foi o sol e as manhãs
onde foi que nos perdemos?


caminha pelo teu corpo um silêncio como uma aragem
como um martírio triste como um homem cansado
como a morte ao fim da tarde como um rio
como um silêncio profundo a levar-te


caminha pelo teu corpo um silêncio como uma aragem
começam hoje os dias os meses os anos depois de ti
começa hoje a ser recordação apenas o quanto vivi
e partindo de mim avanças


caminha pelo teu corpo um silêncio como uma aragem
não vás porque a vida é aqui e o esquecimento é longe
mas tu não me ouves já avanças
e a noite segura-te por onde vais

caminha pelo teu corpo um silêncio como uma aragem
ainda agora partiste e és já uma memória desfocada
não vás porque a vida é aqui e o esquecimento é longe
e as minhas palavras não valem nada
caminha pelo teu corpo um silêncio como uma aragem
avanças devagar percorrendo um grande caminho
a tarde morre de repente num silêncio como uma aragem
e fico morto esquecido mutilado sozinho
José Luís Peixoto in a criança em ruínas

Monday, August 20, 2007

SÃO JORGE, COSTA NORTE

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fOTO: http://supertatas.blogspot.com/2006/08/aores-s_25.html


Desço com o vento a Ribeira dos Vimes, levo pássaros nos ombros e escuto a voz da água da Caldeira. Esmeralda, o ar da manhã...



A terra treme: é o vulcão oculto da ilha, a boca de rir tremendo, o registo nos ramos altos das árvores livres... Tremer sem medo é uma linguagem da ilha, a febre profunda de chegar às raízes das pessoas...


É Verão quando não chove e o vento sopra do sul. E se chover é o mesmo...


O basalto é azul até onde o mar chega... A costa norte rebenta de silêncio e o João, a golpes de enxada, põe ao sol o corpo submerso dos inhames.


As crianças da Fajã sorriem para o sol-total desta manhã norte de São Jorge: este é o poema!


Fecho os olhos e com as mãos procuro em carícia a erva no solo e levo-a à boca como um animal civilizado que lhe agradece a beleza e o aroma magnífico deste céu terreno.


João acena-me com os braços erguidos, chama-me com o seus gestos de pescador e camponês: gestos que trazem raízes e ondas, a bondade universal da ilha e do mundo!


Não é o que sinto e canto que faz o Poema! O poema é a Ilha e a sua gente; o resto do que digo não passa duma manhã de esmeralda com um homem dizendo “bom dia” nos gestos de trabalhador!




Carlos Faria, S. Jorge

Saturday, August 18, 2007

sou os mil ventos que sopram

Não pares junto à minha campa a chorar,
Porque não estou lá.
Não estou adormecido.
Sou os mil ventos que sopram,
Sou o brilho do diamante na neve,
Sou a luz do Sol na semente madura,
Sou a chuva branda do Outono.
Na quietude macia da luz matutina
Sou a ave que voa veloz.
Não pares junto à minha campa a chorar,
Eu não estou lá,
Eu não morri.

(autor desconhecido)

Tuesday, July 31, 2007

Mar com poeta dentro

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fOTO: Hélder Freitas in http://www.olhares.com/SaxMar


O corpo da ilha não tem nome
próprio de quem se rodeia de orvalhos antigos.
Quando navega não tem
rumo nem destino.
No cais a penumbra branca desce
sobre a viagem adormecida.

Desconhece-se que poeta foi ver o mar por dentro.
Mas sabe-se quem grafitou com sonhos
os muros da solidão.


Álamo Oliveira, In Novos Rumores do Mar


Sunday, July 29, 2007

tempo

fOTO in http://www.olhares.com/DETAIL


...porque disponho de tempo, porque o quero modificar, acender-lhe luzes aqui e ali, mas para isso já existem as estrelas, mil sóis e luas. sim, porque disponho de todo o tempo que existe, talvez acender uma luzinha cá dentro e sair pela noite...

Friday, July 27, 2007

sentados no silêncio


Com os mortos só poderemos ter delicadeza, mas o caminho por onde seguem é-nos hostil desde o primeiro passo; não nos resta outra coisa senão esperá-los aqui, sentados no silêncio, o coração em desordem. Talvez um verão ardente os traga até à nossa porta, dois golfinhos de prata no anel e o cheiro das ilhas no cabelo, para que o inverno seja suportável.
Eugénio de Andrade

Thursday, July 26, 2007

Da Emigração

fOTO: Paulo Madeira in http://www.olhares.com/moss



Os homens partiram do seu seio-Ilha
em buscar de um lugar-prosperidade
Na bagagem
levaram o negro do basalto
e o cheiro da criptoméria
No olhar
a saudade do mato
do pasto manchado a preto e branco
da morraça que não molha molhando
e que os transforma numa substância incorpórea:




na alma do milhafre que abraça as montanhas
(saudade tão portuguesa...)

Thursday, July 12, 2007

Ocupações de Verão - Eugénio

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fOTO: mIGUEL p. dIAS in http://www.olhares.com/Chavesmig



Ocupações de Verão

Finalmente disponho de tempo, disponho mesmo do tempo todo, posso fazer o que quiser dos meus dias, por exemplo, estender-me ao sol e aguardar a chegada das formigas. Não podem tardar, e quando chegarem já aqui me encontram, a mim, que sou vacilação, ou o que restar de mim, boa-noite, umas sandálias, uns óculos, algumas sílabas quase de vidro. Tenho de pensar no que direi a criaturas tão susceptíveis; seria de mau gosto distraí-las das suas ocupações, falar-lhes-ei do trigo vermelho da Hungria, às vezes quase violeta, dos cardos de Epidauro rastejando na terra, à procura do coração da água. Mas quando me voltei para seguir o voo do pássaro, apercebi-me que o tempo mudara, as formigas já não viriam. Com efeito o sol escurecera, a chuva não tardaria, torrencial. Quem me ajudará agora a rilhar a eternidade?


Se o vento vier

De repente, sem saber por onde entrara, eu tinha a lua comigo. Não era a primeira vez, não, não era. A primeira vez havia sido há muitos anos: adormecera na eira sobre o feno, e quando acordei a lua estava a meu lado e fizera da noite um interminável e azul lago de prata. Eu flutuava no luar espesso, pensava menos que uma folha de papel. Todo o esforço que fazia era para não me desprender do solo, como se a acção da gravidade não me dissesse respeito, e flutuar no espaço fosse a minha vocação. Se o vento vier, não tenho mais remédio que abandonar-me e ver até onde me levam os seus espíritos.


Eugénio de Andrade

Sunday, July 08, 2007

Sinfonia de Cor - Armando Cortes-Rodrigues

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Foto: Jorge Rodrigues in http://www.olhares.com/wonderbirds


Sempre defronte
de mim
o mar azul, o mar imenso, o mar sem fim,
todo igual e azul até ao horizonte.

Neste dia delirante
de luz crua a jorrar, intensa, lá do alto,
uma vela distante
mancha de branco o seu azul-cobalto.

Um traço de espuma branca
junto à penedia
marca a linha da costa em enseada franca.

E a nota branca
das gaivotas em bando,
esvoaçando
à revelia,
e um ritmo novo de alegria,
de ruído e de graça.

Perto uma vela passa,
lenço branco a acenar...

Não ter asas também para poder voar
aonde me levasse a minha fantasia!
E ser gaivota e mergulhar
na água e bater asas,
alegre, todo o dia!

Poisar nos calhaus negros, que são brasas,
brasas negras a arder,
e ver aos pés a referver
aos borbotões de espuma.

Dar um grito e subir,
subir alto e distante,
já quando a terra se esfuma
e o mar aumenta, quanto mais avante.

Partir!

Partir para o delírio das alturas,
só, entre o céu e o mar,
longe do mundo e mais das criaturas.

Ah! Não ter asas e poder voar
de alma desvairada,
entontecer-me de espaço...

– Nota branca riscada
entre o azul do céu e o azul do mar.

Depois voltar
para ver
o sol morrer
num clarão de fogueira,
incendiando o céu, metalizando o mar...

E ver a noite abrir
o regaço
para deixar cair
uma a uma as estrelas.

Adormecer a vê-las...

Depois sonhar,
num delírio de cor, a noite inteira.

Armando Cortes-Rodrigues
(enviado por Olegário Paz)

Friday, July 06, 2007

aborrecimento social

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Foto: Vanda Lacão in http://www.olhares.com/samyti


corrompi-me novamente. o ter, o querer mais, sempre e acima de tudo. o medo de ter fome, de viver na rua, de sei lá que mais. medo. e voltei a ser como queriam que fosse. a correr, autómato, com um objectivo fixo, mas na verdade sem rumo. não é este o meu caminho, não é minha esta azáfama enervante sem tempo para mais, isto não é meu, é vosso. eu sigo para um lugar longe disto. as convenções, as obrigações toldam o pensamento, inibem o espontâneo que há em mim. ah a imagem a manter, tão importante. é verdade. tão importante essa imagem que quero que tenham de mim. ahahahah deixem-me rir da ideia. fantasias de todos nós. como se isso fosse ter alguma importância no todo.
quando vivia na ilha, rodeada de olhares, opiniões alheias, pensava muitas vezes que a minha vida nesse micro-cosmos não interessava a mais ninguém fora dele. nesse isolamento toda a vivência assume outra proporção, mas fora dali as estórias de telenovela não interessam para nada. na verdade, todos vivemos num micro-cosmos, e as nossas estórias não interessam para nada fora dele, porque ninguém nos conhece. valerá a pena toda a preocupação com a imagem que têm de mim os outros, se as cores combinam, se o cabelo é vermelho ou amarelo!?! acreditem, se quiserem, isso tem pouca importância, porque sou muito mais do que isso, e não me assumo como um de “vós”.

Tuesday, July 03, 2007

Dissolução no corpo - Octávio Mora

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Foto: Maria Isabel Batista in http://www.olhares.com/Farisa
Dissolve-se-me o rosto.
Os lábios, ao silêncio, de regresso,
ao hálito a linguagem:
não sinto o gosto
que tinham as palavras. E, confesso:
sou só imagem.
Perco a lembrança, oca,
de tudo o que recordo. Posso estar
com a terra a meus pés
que será pouca
para tudo que ando ao arrastar
suas marés.
Sempre que a terra consegue
adiante de todos os meus passos
estar: inamovível.
Passiva: entregue.
Sob os meus pés e longe dos meus braços:
em outro nível.
São seus rios meus rastos.
Deixo sobre seu rosto minha face
já sem identidade.
Busco outros pastos.
Preso a seus gestos ficará, quem nasce,
em liberdade.
Dissolve-se-me a voz.
Ao silêncio geral estou de volta:
com água pela testa
e os cegos nós
de quem, árvore, fica, se as mãos solta,
preso à floresta.
Octávio Mora

Sunday, June 24, 2007

Epitáfio - Sérgio Brito

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Foto: Karina Bertoncini in http://www.olhares.com/KarinaBertoncini


Devia ter amado mais,
ter chorado mais,
ter visto o Sol nascer...
Devia ter arriscado mais,
até errado mais,
ter feito o que eu queria fazer...
Queria ter aceite
as pessoas tal como elas são.
Cada um sabe a alegria
e dor que traz no coração.
Devia ter complicado menos,
trabalhado menos,
ter visto o pôr-do-sol.
Devia ter-me importado menos
com problemas pequenos,
Ter morrido de amor...
Queria ter aceite
a vida tal como ela é
a cada um cabe a alegria
e a tristeza que vier...

O Acaso vai-me proteger
enquanto eu andar distraído.




- cantado por Tim hoje no Teatro Aveirense -

Tuesday, June 19, 2007

Juro que não vou esquecer - António Lobo Antunes

Juro que não vou esquecer...

Nunca vou esquecer o olhar da rapariga que espera o tratamento de radioterapia. Sentada numa das cadeiras de plástico, o homem que a acompanha (o pai?) coloca-lhe uma almofada na nuca para ela encostar a cabeça à parede e assim fica, magra, imóvel, calada, com os olhos a gritarem o que ninguém ouve. O homem tira o lenço do bolso, passa-lho devagarinho na cara e os seus olhos gritam também: na sala onde tanta gente aguarda lá fora, algumas vindas de longe, de terras do Alentejo quase na fronteira, desembarcam pessoas de maca, um senhor idoso de fato completo, botão do colarinho abotoado, sem gravata, a mesma nódoa sempre na manga (a nódoa grita) caminhando devagarinho para o balcão numa dignidade de príncipe. É pobre, vê-se que é pobre, não existe um único osso que não lhe fure a pele, entende-se o sofrimento nos traços impassíveis e não grita com os olhos porque não tem olhos já, tem no lugar deles a mesma pele esverdeada que os ossos furam, a mão esquelética consegue puxar da algibeira o cartãozinho onde lhe marcam as sessões. Mulheres com lenços a cobrirem a ausência de cabelo, outras de perucas patéticas que não ligam com as feições nem aderem ao crânio, lhes flutuam em torno. E a imensasolidão de todos eles. À entrada do corredor, no espaço entre duas portas, uma africana de óculos chora sem ruído, metendo os polegares por baixo daslentes a secar as pálpebras. Chora sem ruído e sem um músculo que estremeçasequer, apagando-se a si mesma com o verniz estalado das unhas. Um sujeitode pé com um saco de plástico. Um outro a arrastar uma das pernas. A chuva incessante contra as janelas enormes. Plantas em vasos. Revistas que as pessoas não lêem. E eu, cheio de vergonha de ser eu, a pensar faltam-me duas sessões, eles morrem e eu fico vivo, graças a Deus sofri de uma coisasem importância, estou aqui para um tratamento preventivo, dizem-me que me curei, fico vivo, daqui a pouco tudo isto não passou de um pesadelo, uma irrealidade, fico vivo, dentro de mim estas pessoas a doerem-me tanto, fico vivo como, a rapariga de cabeça encostada à parede não vê ninguém, os outros (nós) somos transparentes para ela, toda no interior do seu tormento, o homem poisa-lhe os dedos e ela não sente os dedos, fico vivo de que maneira, como, mudei tanto nestes últimos meses, os meus companheiros dão-me vontade de ajoelhar, não os mereço da mesma forma que eles não merecem isto, que estúpido perguntar
- Porquê ?
que estúpido indignar-me, zango-me com Deus, comigo, com a vida que tive, como pude ser tão desatento, tão arrogante, tão parvo, como pude queixar-me, gostava de ter os joelhos enormes de modo que coubessem no meu colo em vez das cadeiras de plástico
(não são de plástico, outra coisa qualquer, mais confortável, que não tenho tempo agora de pensar no que é)
isto que escrevo sai de mim como um vómito, tão depressa que a esferográfica não acompanha, perco imensas palavras, frases inteiras, emoções que me fogem, isto que escrevo não chega aos calcanhares do senhor idoso de fato completo
(aos quadradinhos, já gasto, já bom para deitar fora)
botão de colarinho abotoado, sem gravata e no entanto a gravata está lá, a gravata está lá, o que interessa a nódoa da manga
(a nódoa grita)
o que interessa que caminhe devagar para o balcão mal podendo consigo, doem-me os dedos da força que faço para escrever, não existe um único osso que não lhe fure a pele, entende-se o sofrimento nos traços impassíveis enão grita com os olhos porque não tem olhos já, tem no lugar deles a mesma pele esverdeada que os ossos furam e me observa por instantes, diga
- António
senhor, por favor diga
- António
chamo-me António, não tem importância nenhuma mas chamo-me António e não posso fazer nada por si, não posso fazer nada por ninguém, chamo-me António e não lhe chego aos calcanhares, sou mais pobre que você, falta-me a sua força e coragem, pegue-me antes você ao colo e garanta-me que não morre, não pode morrer, no caso de você morrer eu
No caso de você e da rapariga da almofada morrerem vou ter vergonha de estar vivo.
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António Lobo Antunes, Visão

Monday, June 18, 2007

Navegador do mar das ilhas - Cristóvão Aguiar

.
Foto: José Luis Mendes in http://www.olhares.com/Jseven
Eu, Cristóvão Colombo,
Por graça do Senhor
Navegador,
Demandei terra estranha
Ao serviço de Espanha...

Meus dedos
Navegam no mar...
Cinco barcos, cinco destinos,
Em busca da mulher
Das ilhas da memória...
Rompi mares, rompi velas
Em naus de madeira!

Sou de certa maneira
Um Colombo, navegador...
Tenho o mar das ilhas
Na poça das minhas mãos...
Meus dedos são barcos
Rompendo destinos...
Descobri terras,
Plantei padrões de pedra
No cimo das descobertas,
E tornei-me o Senhor
Dos ventos marítimos
E das naus de sal...

Cristóvão Colombo,
Por graça do senhor
Navegador,
Demandou terra estranha
Ao serviço de Espanha...

Eu, que também sou navegador
(Ou talvez ainda muito mais...)
Eu, que sou o Senhor
Do mar das ilhas da memória...
E dos ventos
E das naus
(Eu, que sou dos Cortes Reais...)
Descobri por engano
Uma terra estranha,
- Tal qual o Colombo
Ao serviço de Espanha

Crisóvão Aguiar in Mãos Vazias, 1965

Tuesday, June 12, 2007

Revista Minguante




Já está disponível o novo número da revista Minguante de micronarrativas em http://minguante.com/


Boas leituras.

Monday, June 11, 2007

Alexandre Borges - Heartbreak Hotel

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Foto: Paulo Medeiros in http://www.olhares.com/paulomed
não tenho a certeza de pertencer a este lugar ou
a qualquer outro, como tu, mas nós
nós é diferente
pertencemos aqui como duas lajes de um chão mosaico
parte do quadro pintado para os passos
de quem apenas levite

e de repente toda a dança é possível no rodopio do
tempo, nas
têmporas do rosto grande das figuras em estátua
perfumadas
nas catedrais.
Visita-me lá, visita-me aqui, reconhece os lugares
que cruzaste
à beira dos caminhos, a caminho de outros lugares
quaisquer.
E tira fotos para os escaparates, dos pedestais, dos
estendais, das escapatórias das linhas de fuga das
obras de arquitectura dos arrozais

no mar mora a chuva que não chegou a chover
como na terra o fogo que não ardeu,
há um trigueiro em chão sagrado da vindima
sem templo sem pai nem mãe nem voz
e ainda assim é cantor e trigueiro e filho e sacerdote
a meio da chuva que não choveu, do incêndio
que nada consumiu

há viagens por dentro e por fora, de lado a lado dos
orientes da tua curva
o perfil talhado dos deuses desde a tua boca
ao fim do mundo conhecido.
Quero-te com prazo de validade
a duração de dois corações descartáveis
a força e o medo do primeiro astronauta
o espanto passageiro de uma criança
a contenção de um diplomata
falando ao País.

E sei-te de cor para a próxima vez em que um de nós
tenha de ir embora
antes de vir a luz
Alexandre Borges in Heartbreak Hotel
(enviado por Olegário Paz)

Friday, June 08, 2007

Ronald de Carvalho e Ledo Ivo

Foto: Maria Isabel Batista in http://www.olhares.com/Farisa


ÉPURA

Geometrias, imaginações destes caminhos de minha terra!

Curvas de trilhos
triângulos de asas,
bolas de cor…

Sombras redondas agachadas entre as árvores,
cilindros de troncos embebidos na luz…
Geometrias, imaginações destes caminhos de minha terra!
Cheira a mar!
Melancolicamente, esta alegria geométrica,
pingando brilhos polidos,
o leque das bananeiras abana o ar da manhã…

Ronald de Carvalho


OFÍCIO DE VIVER

Vou sempre além de mim mesmo
em teu dorso, ó verso.
O que não sou nasce em mim
e, máscara mais verdadeira
do que o rosto, toma conta
de meus símbolos terrestres.
Imaginação! teu véu
envolve humildes objectos
que na sombra resplandecem.
Vestíbulo do informulável,
poesia, és como a carne,
atrás de ti é que existes.
E as palavras são moedas.
Com elas, tudo compramos,
a árvore que nasce no espaço
e o mar que não escutamos,
formas tangíveis de um corpo
e a terra em que não pisamos.

Se inventar é o meu destino,
invento e invento-me. Canto.


Ledo Ivo

Monday, June 04, 2007

In Loco - José Martins Garcia

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Foto: Pico (autor ?)
surpreende-me a proximidade
das pedras dos bichos e das fábulas
ao passo que os humanos bolorecem jovens
idênticos a intemporais naufrágios

ilha de quem? de quê? de que basalto ou névoa?
borbulha só da minha consciência?
e o Canadá e a Califórnia e o Massachusetts
que demónios açóricos poderão preservar?

oh lendas de baleias e veleiros e terras novas
oh parentes hoje sem identidade
spikando entre arrotos de vera ou ficta abundância
seus novos mares ilusórios!

eu vos lamento e rio e em português me choro
mais uma vez negando a condição da bruma
hoje efectiva material e des-sonhada
mortalha entre o Pico e o Faial

surpreende-me a existência de coisas como ilhas
depois de haverem sido textos meus
surpreende-me a nuvem esmagante
depois de me ter sido vocalismo errante

surpreendo-me eu próprio ao mastigar palavras
em português no meio do Atlântico sem Atlântida
e surpreende-me que os mortos não ressurjam
não compareçam ectoplasmas de sargaço
no fumo do meu charuto talvez americano

versos de quem? de que ilusão linguística?
e que laço vos laça e que fome vos lança
do entardecer ilhéu à banal brisa?

oh Betefete oh Fall River oh Braga Bridge
oh fealdade dos topónimos quando burgos
sonantes
oh fealdade efectiva das pedras picarotas
que avistadas de Newport são legiões heróicas
e grandiosos corsários
e arpões fantasmáticos
e aqui fisicamente são o canal da tristeza
entre o meu ser pardacento
e o murmúrio do longe
silencioso sonho que a geografia esmigalha
José Martins Garcia
(enviado por Olegário Paz)

Thursday, May 31, 2007

Sul - Eugénio de Andrade

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Foto: Ricado da Costa in http://www.olhares.com/touchdelight
(hoje acordei a s-o-l-e-t-r-a-r este poema:)
.
Era Verão, havia o muro.
Na praça, a única evidência
eram os pombos, o ardor
da cal. De repente
o silêncio sacudiu as crinas,
correu para o mar.
Pensei: devíamos morrer assim.
Assim: explodir no ar.
Eugénio de Andrade

Junho - José Henrique Santos Barros

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Foto: Carlos Bettencourt in http://clubezoom.blogspot.com/


Em Junho cantávamos a ilha.


O Verão espreitava pelos calções que molhávamos na praia suja e pelas riscas vermelhas das blusas das raparigas virgens.


Sobrevivência de terramotos, gatos mortos para o enterro das marés puras. Embalávamos o barco de borracha (dos americanos, claro) apoitado no arquipélago, que não imaginávamos como ilhas incomunicáveis. Tu dizias alto: «Somos piratas» e a nossa missão civilizadora desenvolvia-se entre os polvos que temíamos e os caranguejos que picavam mas nem por isso assustavam.


Difícil era entrar por dentro do tufo coberto de água, que nos cobria até à cintura. Chegados a meio, temente do equilíbrio conquistado, mijar clandestinamente era o maior prazer da meia viagem (...). Prosseguir, subir a uma pequena escada, depois de beber o sal por todos os poros e então pescar à linha, pelos joelhos segurando a invasão das marés e, mãos fechadas, segurar firme o cabo que nos ligava ao fundo onde se projectava o querer abismal da boca de um peixe de tamanho impossível.



José Henrique Santos Barros in Testes e Versos para Andar na Rua, 1973.

Tuesday, May 29, 2007

Fábula da ilha - Álamo Oliveira

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Mapa dos Açores desenhado por Luís Teixeira, cosmógrafo real (1584).



um bando de gaivotas em liturgia de abandono
orienta marinheiros de ignorância e cachimbo


(o barco da cruz gramada; os pés da bússula ruindo;

a mosca henriquina emigrada em sono).


na baía incendiada o grito do sossego partilha

âncoras de fundo e fumo com peixes e hortelã.


não era indício de oiro nem esfinge de sereia nem

vagabundo do sonho num deserto de cetim. era ilha!



(nas suas entranhas com vómitos de lava

setia-se crescer a lascívia do povoamento).

........................................................................................

ainda hoje se ouve a angústia do vento
percorrer as coordenadas do povo no mapa.


Álamo Oliveira in Fábulas, 1974

Friday, May 25, 2007

Os nascimentos - Pablo Neruda

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A Natividade, Paula Rego


Nunca nos recordaremos da nossa morte.

Tão pacientes fomos
para sermos
que anotámos
os números, os dias,
os anos e os meses,
os cabelos, as bocas que beijámos,
e aquele minuto antes de morrer
deixá-lo-emos sem anotação:
damo-lo a outros de lembrança
ou simplesmente à água,
à água, ao ar, ao tempo.
E de nascer tão-pouco
guardámos a memória,
ainda que importante e jovial
tenha sido a nossa vida:
e agora não te lembras sequer
do mais pequeno pormenor,
não guardaste sequer um ramos
da primeira luz.

Sabe-se apenas que nascemos.

Sabe-se que na sala
ou no bosque
ou no palheiro do bairro piscatório
ou nos canaviais rumorejantes
há um estranho e profundo silêncio,
um minuto solene de madeira
e uma mulher que vai parir.

Sabe-se apenas que nascemos.

Mas da profunda agitação
de não ser para existir, para ter mãos,
para ver, para ter olhos,
para comer e chorar e despojar-se
e amar, amar, e sofrer, sofrer,
daquela transição ou calafrio
do conteúdo eléctrico que um corpo
tomar para si como se fora uma taça viva,
e daquela mulher desabitada,
a mãe que ali fica com o seu sangue
e a sua dilacerada plenitude,
com o seu fim e princípio, e a desordem
que altera o pulso, o chão, os cobertores,
até que tudo se recolhe e mais

um nó é dado com o fio da vida,
nada, não ficou nada na tua memória
do mar bravio que ergueu uma onda
e derrubou da árvore uma maçã sombria.

Não tens mais recordações que a tua vida.


Pablo Neruda, Os nascimentos

Wednesday, May 23, 2007

Ilha - Natércia Fraga

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António Dacosta


Terá sido o vento o mar as gaivotas
Ou a distância
O horizonte perdido o bramir dos temporais
Ou a distância
A solidão da aldeia o espanto da cidade
Enredado em penas de pavão bolos de chocolate e surpresa
A idade tão jovem e a velhice do mundo
Ou a distância
Que naquele cais à luz da noite
Degraus assustados e tentadores
Para a lancha
Reduzida a ser criança
Me levaram os olhos escuridão fora
Durante tempo infinito
E só depois mos devolveram
Entristecidos sonhadores fundos como o mar?

Ou terá sido a ampla misteriosa distância
Que se colava ao horizonte? ...
Natércia Fraga, Ilha

Porque por vezes naufragamos - VI



A rota seria prolongada. São demorados todos os caminhos que nos conduzem à consumação dos desejos mais íntimos. (…)

A treva impenetrável cingia tão estreitamente o barco que tínhamos a sensação de que se estendêssemos a mão para fora da borda, tocaríamos uma substância de outro mundo. (…)

Quando a ocasião própria chegasse, as trevas dominariam em silêncio a pouca luz das estrelas que caía ainda sobre o barco e o fim de tudo viria sem um suspiro sequer, sem um movimento, sem murmúrio algum, e todos os nossos corações deixariam de pulsar, como relógios a que a corda se acabasse. (…)







Joseph Conrad, A Linha de Sombra, 1917

Tuesday, May 22, 2007

Porque por vezes naufragamos - V

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Fonte: Greenpeace



«Que diabo se passa no nosso mar?», perguntávamos a nós mesmos. E numa manhã de Verão, em 1984, tivemos a resposta. (…)
«Vimos um barco-fábrica de mais de cem metros de comprido, várias cobertas, parado mas com as máquinas a toda a força. Aproximámo-nos até que reconhecemos a bandeira japonesa pendente à popa. (…)
«Com uma tubagem de uns dois metros de diâmetro sugavam o mar. Puxavam-no todo, provocando uma corrente que sentimos debaixo da quilha e, depois de passado o aspirador, o mar ficou transformado num escuro caldo de águas mortas. (...) Com as respiração quase paralisada de horror vimos como várias crias de golfinhos eram sugadas e desapareciam. (…)

Senti que estava a chegar ao fim de uma longa viagem. (…) Pensei em desembarcar o Pedro Pequeno e depois atirar-me com o Finisterre a toda a força contra a casa das máquinas do Nishin Maru. Trago quinhentos litros de combustível a bordo (…) O Pedro leu-me os pensamentos(…). Vio-o remar em direcção ao Nishin Maru e, quando chegou lá, os tripulantes começaram a atirar-lhe lixo para cima (…)

«A dado momento, quando mais duas mangueiras se tinham juntado à brincadeira e o Pedro já quase não conseguia manter-se a flutuar, emergiu junto do escaler o dorso de uma baleia calderón, que, com todo o cuidado, empurrou o Pedro e a sua embarcação até os afastar do navio. Então, obedecendo a uma chamada que nenhum outro homem ouviu no mar, um chamamento tão agudo que estremecia os tímpanos, trinta, cinquenta, cem, uma multidão de baleias e golfinhos nadaram velozmente até quase tocarem a costa, para regressarem com maior velocidade ainda e chocarem as cabeças contra o barco.

«Sem lhes importar o facto de que em cada ataque muitos morriam de cabeças rebentadas, os cetáceos repetiram os ataques até que o Nishin Maru, empurrado contra a costa, correu o risco de encalhar. Levaram-nos para muito perto dos recifes e havia pânico a bordo. Alguns tripulantes insensatos lançaram barcos salva-vidas que mal tocavam a água eram destruídos com pancadas das caudas. A outros vi-os eu cair à água durante as investidas. Logo se declarou um incêndio a bordo, o helicóptero ardeu na coberta da popa, e Tanifuji deu ordem para se afastarem a toda a força das máquinas, sem se preocuparem com a sorte dos tripulantes que ainda se agitavam dentro de água e que foram implacavelmente despedaçados pelas baleias e pelos golfinhos.

«Custa-lhe a acreditar em tudo isto? Claro que é incrível, mas amanhã verá com os seus próprios olhos o lugar e os restos da batalha.



Luís Sepúlveda, Mundo do Fim do Mundo, 1989

Monday, May 21, 2007

Rota de Ítaca - Marcolino Candeias

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Foto: Filipe Franco in http://clubezoom.blogspot.com/
Mas se tenho de partir que de novo eu parta
é talvez bem melhor do que ficarem
meus pés no cais chumbados em argola
meus olhos no horizonte ao sonho a velejar.
Que eu parta. E assuma o risco de partir
fender a bruma sobre este coração cerrada
colher num bojador espinhos perfumados
partir e não saber em que angra fundear.
Largar amarras. Ir decifrando
quantos portulanos na vida houver a decifrar.
E se no fim faltar o cais para a chegada
o mar também é terra onde morar.
Marcolino Candeias, Na Distância deste Tempo, 2002

da vida na "ilha"




- Estamos numa ilha. Talvez até não haja aqui gente crescida. (…)


- Ninguém sabe que estamos aqui. (…) Temos de ficar aqui até morrer. (…)


William Golding, O Deus das Moscas



Augusto, embora permanecendo um homem, era obrigado a tornar-se em algo mais: tinha de assumir os poderes de um ser excepcional dotado de um excepcional talento. Tinha de fazer rir as pessoas. (…)
Mais altas, porém, eram as suas ambições – queria dotar os espectadores de uma alegria que se revelasse imperecível. Foi esta obsessão que primeiramente o levou a sentar-se aos pés da escada e simular o êxtase. (…)


Quanto maior era o sucesso desta pequena paródia aos pés da escada, tanto mais sorumbático Augusto se tornava. (…)
Certa noite transformou-se subitamente em mofas e assobios (…). Augusto esquecera-se de «regressar». (…)
Rompido abruptamente o contrato, resolveu fugir daquele seu mundo conhecido. (…)


E então, certo dia, como que numa revelação luminosa apercebeu-se de que já há muito, muito tempo, não conhecia a felicidade. (…)


Tinha começado a viver somente a partir do dia em que se juntara ao grupo, desde o exacto momento em que decidira servir como o mais humilde dos humildes. Aquela vida secreta evaporara-se quase sem ele dar por isso – voltara a ser um homem como os outros, fazendo as mesmas coisas absurdas, insignificantes, necessárias, que os outros faziam – e assim conhecera a felicidade, a plenitude dos dias. (…)



Sermos nós próprios, unicamente nós próprios, é algo de extraordinário. Mas como chegar a isso, como alcançá-lo? Ah!, eis o truque mais difícil de todos. Difícil, exactamente, porque não envolve esforço. (…)



Henry Miller, O Sorriso aos Pés da Escada



Sunday, May 20, 2007

Porque por vezes naufragamos - IV

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autor (?)



(…) Procurando chegar à superfície, nadei para cima pelo espaço de um, dois, três segundos. Continuei a nadar para cima. Faltava-me o ar. Asfixiava. Tentei agarrar-me à carga, mas a carga já lá não estava. Já não havia nada em redor. Quando cheguei à superfície não vi à minha volta nada que não fosse mar. Um segundo depois, aí a cem metros de distância, o navio surgiu de entre as ondas, deitando água por todos os lados, como um submarino. Só então me apercebi que tinha caído ao mar. (…)

Ao quarto dia já não estava muito seguro das minhas contas em relação aos dias em que já andava na balsa. Eram três? Eram quatro? Eram cinco? (…) Preferi deixar as coisas como estavam, para evitar novas confusões, e perdi definitivamente as esperanças de me virem salvar. (…)

Agora sei que o peixe cru acalma a sede. (…) Decidi embrulhá-lo a camisa e deixá-lo no fundo da balsa para que se mantivesse fresco. Distraidamente, agarrei-o pela cauda e mergulhei-o uma vez por borda fora. Mas o sangue estava coagulado entre as escamas. Era preciso esfregá-lo. Ingenuamente voltei a mergulhá-lo. E foi então que senti a investida e o barulho violento das mandíbulas do tubarão. (…) Voltei a puxar com todas as minhas forças, mas já não havia nada nas minhas mãos. (…)

Nessa manhã tinha optado entre a vida e a morte. Tinha escolhido a morte, e no entanto continuava vivo, com o bocado de remo na mão, disposto a continuar a lutar pela vida. A continuar a lutar pela única coisa que já não me interessava nada. (…)





Gabriel Garcia Marquez, Relato de um Náufrago, 1970


(relato do único marinheiro que sobreviveu após oito homens terem caído de um contratorpedeiro da marinha de guerra da Colômbia, em 1955. Após a sua publicação Gabriel Garcia Marquez foi obrigado a exilar-se.)

Friday, May 18, 2007

semelhanças, que é como quem diz: já ouvi isto em algum lado

Onésimo Teotónio Almeida escreveu que "Pior do que ansiedade de influência na cabeça de quem escreve é descobrir a, afinal, não originalidade de uma frase, um dito, uma expressão, um trocadilho, uma metáfora, um achado linguístico de qualquer espécie que saiu assinada com o nosso nome. Vai um simples mortal escrevendo o que supõe ser verbo seu, puro e inocente, e encontra-o mais tarde escrito por outro, publicado em data anterior. (...) não deve haver escrevente prezado dos seus fundilhos que não sinta voltas no estômago. (...)
Todas as precauções nem sempre chegam para impedir deslizes. Têm-me acontecido. Durante anos habituei-me a citar João de Melo: «Os Açores são lugar de muito mar e pouca terra.» Cheguei mesmo a escrever um texto num livro em inglês em que citei a frase e lhe escarrapachei o nome de João como dono. Há tempos, por mero acaso, dei com ela num livro. Livro meu, isto é. Escrito há dez anos.
Para complicar mais o enredo, contava-o eu em conversa ao Daniel de Sá e ele assegurou-me que dissera algo parecido num jornal anos antes. Mas esse, eu não li nunca. Por acaso." (...) (Viagens na Minha Era - Dia-crónicas, do referido autor).
Ora tudo isto me veio à lembrança ao ler recentemente o Está a fazer-se cada vez mais tarde do Antonio Tabucchi, autor que muito prezo e a quem agradeço que pelo périplo por terras lusitanas nos tenha presenteado com as suas visitas a Porto Pim! Como é sabido, Tabucchi é conhecedor dos nossos lugares e costumes; ainda neste livro passeia-se pelo Porto, dando um salto ao Peter's na Horta, passando de Maria João Pires ao fado de Amália.
Mas não foi sem algum espanto que lhe li a seguinte frase: "E dir-te-ia também que preparei as palavras para a minha lápide, e que são poucas, porque entre a data de nascimento e a que há-de ser a data da minha morte todos os dias me pertencem (...)."
No site Wikipédia encontramos a seguinte descrição de Tabucchi: "Muito namorado de Portugal, e dos melhores conhecedores, crítico e tradutor italiano do escritor português Fernando Pessoa. Tabucchi chega à obra de Pessoa nos anos sessenta, na Sorbona, fica fascinado e no seu retorno a Itália assiste a aulas de português para poder perceber melhor ao poeta."
Remato com Onésimo novamente: "O subconsciente não tem regras. Se tem, não se nos descose."

Thursday, May 17, 2007

Porque por vezes naufragamos - III

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Era um velho que pescava sozinho num esquife na Corrente do Golfo, e saíra havia já por oitenta e quatro dias sem apanhar um peixe. (…)
- Há-de morder – disse o velho, em voz alta. – Deus permita que ele morda. (…)
- Era meia noite quando o apanhei. E nunca o vi. (…)
O peixe movia-se com constância, e viajavam ambos pelas águas calmas. Os outros anzóis continuavam na água, mas nada havia a fazer. (…)
- Peixe! – disse a meia voz. – Hei-de ficar contigo até morrer. (…)
O velho vira muito peixe graúdo. Vira muitos que pesavam mais de quinhentos quilos, e pescara já dois dessa envergadura, mas nunca só. E agora, só, sem terra à vista, estava amarrado ao maior peixe que jamais vira, maior do que jamais ouvira, e a mão esquerda continuava enclavinhada como as garras de uma águia. (…)



- Galanos. – Vira vir a segunda barbatana atrás da primeira, e identificara ambos como peixes-martelos, por serem castanhas e triangulares as barbatanas, e pelo varrer das caudas. (…)
Pela noite, tubarões atacaram a carcaça, como alguém pode apanhar migalhas da mesa. (…)


Quando entrou no pequeno porto, as luzes do Terraço estavam apagadas, bem sabia que todos dormiam já.(…)
Nessa tarde, havia no Terraço um grupo de turistas e, olhando para a água, entre latas de cerveja vazias e barracudas mortas, uma mulher viu a enorme espinha branca com a portentosa cauda à ponta, que arfava e balouçava na maré, enquanto o vento leste levantava um mar picado e cadenciado, fora da entrada do porto. (…)
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Ernest Hemingway, O Velho e o Mar, 1952

Wednesday, May 16, 2007

Baleia! Baleia! - Manuel Ferreira Duarte

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Foto: http://www.greenpeace.org/international/photosvideos/photos/sperm-whale-in-the-azores-isl




Baleia! Baleia! é uma dedicatória aos baleeiros, pela coragem como punham pão na mesa e ao mesmo tempo um repúdio público aos que os exploraram…

Baleia! Baleia! é também uma homenagem a quantos os cantaram, muito especialmente a Dias de Melo e à sua prolífera e consagrada obra que a tantos tem inspirado.

Baleia! Baleia! é ainda, e acima de tudo, uma tomada de posição e um apelo. Meu irmão, não as mates, pendura o arpão e demais palamenta no Museu. Quando as vires desde a rocha alta, deixa-as soberanas e livres como tu sulcarem o mar da ilha, de todas as ilhas…

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Manuel Ferreira Duarte, A Banda Nova e Outras Histórias, 1991

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Fátima Madruga - Museu dos Baleeiros - Pico


Tuesday, May 15, 2007

Porque por vezes naufragamos - II

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Numa manhã do mês de Setembro de 1945, foi dado o já conhecido e sempre esperado, com ansiedade, sinal de Baleia. (…)
Ao chegarmos perto do Faial, mais precisamente perto do farol da Ribeirinha, começaram a ser avistadas, por fora do «Salão», lá no horizonte, várias velas brancas, quais pequenos triângulos no cimo das vagas. (…)
Poucos minutos passaram e poucas dezenas de metros tínhamos percorrido quando, na crista de uma onda, e no cavado da mesma, a um quarto de milha de nós, o mar começou a abrir, para surgir o dorso preto-acinzentado duma enorme Baleia a estender-se por cima do mar…
Não atirou o bufo como era habitual. Antes, deixou a água escorrer lentamente pela venta. Estava praticamente imóvel. A nossa posição podia ser considerada óptima; mas seria necessário que tudo se mantivesse, o que previ não ser muito provável. A Baleia tinha sido perseguida durante todo o dia. Estava desconfiada e escutava, procurando, sem respirar e sem se mover, ouvir qualquer ruído estranho. (…)
Sabia o risco que corria, tanto mais debaixo dum quase temporal (…). Sabia que, se conseguisse arpoá-la, seria quase impossível matá-la antes de a noite fechar. Teríamos de ficar ligados a ela toda a noite (…).

Vi o perigo, saltei do meu posto, soltei a adriça do pano, para o baixar… Só que era tarde! A refrega chegara e apanhara o pano na descida, fazendo dele balão. O bote adormeceu, começando a meter água! Íamos revirar?!...
E nisto, surgiu a uns seis metros de mim, o monstro tão desejado! Estávamos no cavado da onda e ela na crista, com a sua cabeça muito por cima da minha, vindo na nossa direcção, sem que pudéssemos fazer alguma coisa! (…)


foto: http://trilhosdelava.no.sapo.pt/



Olhei para a frente. A Baleia estava mesmo a passar; vi emergir da água o seu pequeno olho. Apesar das circunstâncias, fixei esse pequenino olho, não sei explicar porquê!... Mas aquela Baleia estava a olhar-me; tive mesmo a impressão de que me via na retina dela… E deve ter sido assim, porque o seu movimento de medo não se fez esperar, atirando-se para fora do bote a rolar sobre ela mesma. Sentiu-se um estalo: era a retranca que a Baleia acabara de partir com a cabeça! (…)
Nun’Álvares de Mendonça, Memórias de um Baleeiro. Açores 1930-1945, 1993
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Nota: O último cachalote foi caçado nos mares dos Açores em 1987. As técnicas de caça não evoluíram desde a época do Moby Dick. A caça Açoriana foi sempre artesanal, a aproximação era feita à vela e de arpão na mão. Numa época de grande pobreza, representou o sustento de inúmeras famílias.
Hoje continua a ser possível partir à aventura e observar baleias e nadar com os golfinhos no mar dos Açores.


Porque por vezes naufragamos - I

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Foto: Sérgio Ávila
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(…) E ficou, só, na bruma espessa, na morrinha da noite caindo negra no mar de procela. Só – na «Ilha Morena» a contorcer-se, como criatura, nas convulsões das vagas que por todos os lados a espancavam, estoirando-lhe no casco, enrodilhando-se no corpo, no jeito de lho quererem abafar, estrangular, matar. (…)
E lutava. Lutava agarrado ao esparrela, na ânsia de dominar a lancha, safá-la às vagas de través, tomar rumo de esperança naquele deserto negro de incertezas tumultuosas. Lutava – esgotando a carga de água que andava no poção, lhe lambia os pés, subia a meio das canelas. Lutava – por vencer os espectros do medo a borbulharem-lhe nas veias, a cocegarem-lhe no coração. (…)
Pobres! Pobres companheiros!
(…)
- Saímos onze do Cais do Pico (…) e quatro são os que restam. (…)
- E agora tudo se acabou!
- Não! Mil vezes não! Aqui, nada se acabou, porque tudo vai começar de novo!


Três dias. Foram três dias. Ou foram três séculos? Ou três milhares de séculos? (…)
- O homem, que é homem, não há nada neste mundo que o possa vencer, senão a morte. E nós estamos vivos! (…)
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Dias de Melo, Mar Pela Proa, 1973
(em memória dos baleeiros que pereceram no desastre do canal)

Monday, May 14, 2007

O verbo no infinito - Vinicius de Moraes

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Foto: Spencer Tunick
Ser criado, gerar-se, transformar
O amor em carne e a carne em amor; nascer
Respirar, e chorar, e adormecer
E se nutrir para poder chorar

Para poder nutrir-se; e despertar
Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir
E começar a amar e então sorrir
E então sorrir para poder chorar.
E crescer, e saber, e ser, e haver
E perder, e sofrer, e ter horror
De ser e amar, e se sentir maldito

E esquecer de tudo ao vir um novo amor
E viver esse amor até morrer
E ir conjugar o verbo no infinito...
Vinicius in Livro de Sonetos

Friday, May 11, 2007

O meu olhar - Alberto Caeiro

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Modelo :-) Rodrigo Dutra


O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...


Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...


O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...



Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,

Mas porque a amo, e amo-a por isso

Porque quem ama nunca sabe o que ama

Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,

E a única inocência não pensar...

Thursday, May 10, 2007

Poeta - Adolfo Casais Monteiro

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Foto: Marta Azevedo in http://www.olhares.com/Martita
Poeta: uma criança em face do papel.

Poema: os jogos inocentes,

invenções de menino aborrecido e só.

A pena joga com palavras ocas,

atira-as ao ar a ver se ganha o jogo;

os dados caem: são o poema. Ganhou.


Adolfo Casais Monteiro


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PARA O DUARTE:

À Mesa


A mãe, se me vê

comer com a mão,

prega-me logo

uma lição.


Então, tentei

comer com o pé:


Tirei sapato,

tirei a meia...

Ia levando

uma tareia.


Mas amanhã

não ralham comigo

pois vou comer

pelo umbigo.


Luísa Ducla Soares

As palavras - José Saramago

As palavras são boas. As palavras são más. As palavras ofendem. As palavras pedem desculpa. As palavras queimam. As palavras acariciam. As palavras são dadas, trocadas, oferecidas, vendidas e inventadas. As palavras estão ausentes. Algumas palavras sugam-nos, não nos largam: são como carraças: vêm nos livros, nos jornais, nos «slogans» publicitários, nas legendas dos filmes, nas cartas e nos cartazes. As palavras aconselham, sugerem, insinuam, ordenam, impõem, segregam, eliminam. São melífluas ou azedas. O mundo gira sobre palavras lubrificadas com óleo de paciência. Os cérebros estão cheios de palavras que vivem em boa paz com as suas contrárias e inimigas. Por isso as pessoas fazem o contrário do que pensam, julgando pensar o que fazem. Há muitas palavras.
José Saramago

Wednesday, May 09, 2007

à flor da pele - Victor Rui Dores

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Foto: Paulo César in http://www.olhares.com/ksar





desfrutar o teu corpo

e dizer água do mar

ou úbere da terra



sentir

a suprema lentidão da língua

e abordar os lábios inquietos

e insaciáveis

...



apertar

as tuas mãos que me despem

na fúria salgada das marés

e dizer-te este desespero

de te possuir

rente aos lábios

...



eu existo

no mais íntimo de ti.

afogo-me no teu fogo

(e não sei de glória maior)



Victor Rui Dores in à Flor da Pele



Monday, May 07, 2007

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hoje não tenho cores novas. as pautas fecharam-se - inventem-se notas. não consigo conjugar mais compassos, semipausas, mínimas, as semibreves foram roubadas. aqui não tenho fundo, nem ouço os mares. ficaram só os despojos de uns gritos que não reconheço. dentro de mim. tudo o mais se foi.
marta dutra

Não cantarei o mar - Nuno Costa Santos

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«(Não cantarei o mar: que ele se vingue
de meu silêncio, nesta concha)»
Carlos Drummond de Andrade


Não cantarei o mar
que me chega
por entre as árvores
neste nocturno regresso a casa
mas é neste instante
que percebo:
não sou das cidades
das donas
do casal que todas as manhãs
me vende os jornais
do homem da garagem
que às vezes não me cumprimenta
por timidez
das raparigas
que se vão substituindo
em frente aos croissants
no trimestral emprego da pastelaria.
Não cantarei o mar
mas é neste instante
que percebo
sou daqui
deste som de ondas batendo
deste tempo quieto, quase terno
desta espuma que
atravessa oculta
os eucaliptos
para me tocar
enfim o coração.



Nuno Costa Santos
(enviado por Olegário Paz)

Friday, May 04, 2007

Elegia - Emanuel Félix

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Foto: António Manuel Pinto da Silva in
http://www.olhares.com/t silva





Quando a manhã rasgou o coração do poeta
voavam pássaros dos teus ombros
e o tempo era uma laranja azul
rolando nos teus dedos meninos

Quando a manhã rasgou o coração do poeta
colhias no jardim os versos puros
da primeira canção

Quando a tarde chegou ao coração do poeta
com flores breves e conchas
desenhavas
nas horas quase brancas
teu caminho de abelha

Ah mas o sol morreu no coração do poeta
e uma andorinha tristemente vem
com um ramo de vento
pairar a tua ausência


Emanuel Félix in A viagem possível

Tuesday, April 24, 2007

Fala do homem nascido - António Gedeão

Foto: António Gama in http://www.olhares.com/gamadu


(Chega à boca da cena, e diz:)


Venho da terra assombrada,
do ventre de minha mãe;
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém.


Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui,
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci.



Trago boca para comer
e olhos para desejar.
Com licença, quero passar,
tenho pressa de viver.
Com licença! Com licença!
Que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo;
não tenho tempo a perder.


Minha barca aparelhada
solta o pano rumo ao norte;
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham,
nem forças que me molestem,
correntes que me detenham.


Quero eu e a Natureza,
que a Natureza sou eu,
e as forças da Natureza
nunca ninguém as venceu.


Com licença! Com licença!
Que a barca se fez ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar.
Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar.



António Gedeão in Teatro do Mundo

Friday, April 20, 2007

A realidade aqui...- Urbano Tavares Rodrigues

Foto: MarkLaranjo in www.acores.net
"O vento borrifa-me o rosto de sal. A areia toda molhada lembra aquelas praias cor-de-rosa que apareciam nos romances do Elio Vittorini dos meus trinta anos.

Há uma vela vermelha, insólita, a atravessar os carneirinhos no que se vê de horizonte e parece dirigir-se para a torre esfumada, quase inexistente, onde quero que habite algum faroleiro filósofo e solitário. (...)

A realidade aqui, nesta costa da saudade, supera sempre em grandeza as descrições que dela se façam, mesmo manchas tão impressivas como as que o Raúl Brandão nos convida a ler em Os Pescadores, tal, por exemplo, esta:

«Três horas da tarde. Céu limpo, mar manso, e sobre o mar uma chapada de pedra, sobre o verde, mil escamas a cintilar, que brilham, luzem e tornam a reluzir. O sol desce pouco a pouco, majestoso e sereno, no céu todo doirado e a luz forma uma estrada que liga o areal ao infinito, uma estrada larga, de oiro vivo, que começa a meus pés, na espuma ensaguentada e chega ao sol. Ó meu amor, não acredites na vida mesquinha, não duvides: dá-me a tua mão e vamos partir por essa estrada fora direitos ao céu!.»"



Urbano Tavares Rodrigues in Margem da Ausência

Thursday, April 19, 2007

Sou do tamanho do que vejo

Peripécia Teatro Fernando António Nogueira Pessoa (Fernando Pessoa)


"O espectáculo nasce de alguns textos que, como fragmentos encontrados no mítico baú do autor, se convertem numa mensagem ao público, como as que lançavam os náufragos das suas ilhas desertas. Vai-se tecendo um diálogo com o espectador, feito de cumplicidades, confissões, graças, reprovações, mal-entendidos e surpresas… e em que os actores brincam a ser um e vários ao mesmo tempo, algo muito próprio de todas/os as/os Pessoas. Atrever-se a seguir Fernando Pessoa, é atrever-se a olhar o mundo e nós próprios com uma radical transparência, desfazer os preconceitos, as grandes ideologias, os grandes sistemas de pensamento. É descobrir como crianças a terrível beleza que nos rodeia e a partir daí aprender a ser outros… Nada parece mais necessário e actual."
Assisti e adorei!

Saturday, April 14, 2007

tenho aquela que me olha e que olho - josé luís peixoto

Foto: Mateus Moreno in http://www.olhares.com/mcm250680


tenho aquela que me olha e que olho
e misturamo-nos como brisas e
silêncios e digo tenho aquela que
me vê e ela olha-me e tudo o
que somos é uma partilha uma
mistura e digo diz e aquela que
tenho beija-me num olhar e num
silêncio que não posso dizer
.
como não tenho lugar no silêncio onde morrem as gaivotas,
despeço-me no oceano e deixo que o céu me conheça.
talvez a serenidade possa ser as minhas mãos a serem uma
brisa sobre a terra e sobre a pele nua de uma mulher.
esse dia, esperança de amanhã, poderá chegar e estarei dormindo.
hoje, sou um pouco de alguma coisa, sou a água salgada
que permanece nas ondas que tudo rejeitam e expulsam
na praia. as gaivotas sobrevoam o meu corpo vivo. os meus
cabelos submersos convidam o silêncio da manhã, raios de sol atravessam
o mar tornados água luminosa, aqui, estou vivo e sou alguém
muito longe.
.
José Luís Peixoto in a criança em ruínas

Tuesday, April 03, 2007

Verde que te quero verde - Lorca



Sinto o abraço mineral dos montes
que me envolve o corpo e me faz planta.
Saio da galáxia da cidade
e transformo-me no ar em coisa leve:
deixo de falar e apenas vivo.
Então eu sou, e os pássaros flutuam
por cima dos pinhais. Sou eu, verde
no verde que cobre o dia inteiro.
Transformo-me em ausência, vou-me embora
coberta de flores ainda em botão.
Sou eu enquanto alcanço a terra
e os montes me dizem o que são.


Federico Garcia Lorca (enviado por Olegário Paz)

Friday, March 23, 2007

num momento de paz - a. gualdino correia


Foto: Miguel Pereira in http://www.olhares.com/jmp76
.
num momento de paz
procurei ver o indizível das coisas
saber o que sou nas horas de prazer
saber o que sinto nas horas de sofrer
ler, ver, receber a luz do papel contrastado
perceber onde me escondo da vida,
que lugar é esse, a vida,
e onde se esconde ela de mim,
saber o porquê de ter o conhecimento em mim
e não ter a cor que dá sentido a esse saber...
cortei-me no papel do ser vezes sem conta
dores agudas de golpes invisíveis
na pele que arde, nas mãos que escrevem
nas mãos que tocam, nas mãos que pedem
na ânsia de querer
no querer ardente de uma vida sonhada
composta de desejo, de sentimento, de alma

o sofrimento existe para lembrar
que o homem pode ser feliz, uma vez...
antónio gualdino correia

Thursday, March 22, 2007

E de novo acredito... - M. Sousa Tavares

Foto: Helder Freitas in http://www.olhares.com/SaxMar

"(...) E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se acabaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."
.
Miguel Sousa Tavares in Não te deixarei morrer, David Crockett
.
"(...) And again I belive that we don't really lose anything that is important. We only deceive ourselves, thinking that we own things, the instants, the others. Along with me go all the dead people I loved, every friend that step away, every happy days meanwhile gone. I didn't lose anything, only the illusion that everything could be mine forever."

Tuesday, March 20, 2007

Por quem os sinos dobram

M.C.Escher

Nenhum homem é uma ilha, completa em si;
Cada homem é um pedaço do continente, uma parte do todo.
Se um torrão for arrastado pelo mar,
A Europa fica diminuída, como se de um promontório se tratasse,
Como se da casa dos teus amigos ou da tua se tratasse;
A morte de qualquer homem diminui-me,
porque sou parte do género humano;
E por isso, nunca perguntes
por quem os sinos dobram;
Eles dobram por ti.
John Donne, Meditation XVII
.
[No man is an island, entire of itself; every man is a piece of the continent, a part of the main. If a clod be washed away by the sea, Europe is the less, as well as if a promontory were, as well as if a manor of thy friend's or of thine own were; any man's death diminishes me, because I am involved in mankind, and therefore never send to know for whom the bells tolls; it tolls for thee. ]

Saturday, March 17, 2007

Movimento de partida - João de Melo

Foto: Marta Dutra - Horta


Creio que o primeiro movimento da infância foi o da partida. (Mais tarde, compreendi que era o movimento total e definitivo dos Açores: o do seu despovoamento). Conheci-o quando as pessoas das casas vizinhas entravam numa espécie de contagem decrescente de tudo o que então as rodeava. Começavam por despedir-se do mar, da agricultura, das vacas, dos instrumentos e ofícios, e depois paravam ao canto de cada rua, com uns olhos subitamente saudosos e tristes, como se estivessem para separar-se não da aldeia e da família, mas da própria vida. Um dia, manhã muito cedo, acordámos com os seus agudos e lancinantes gritos de náufragos. Corremos à porta da rua e ficámos a assistir ao espectáculo dessa dor única e familiar dos que se iam embora para longe. Havia um táxi parado à porta, com o motor a funcionar, e o homem do táxi ajudava a acomodar as malas no porta-bagagem: parecia indiferente aos gritos, porque era a única pessoa com os olhos enxutos e o rosto sereno - mas tinha também uma palidez fria e matinal, a denunciar o embaraço daquelas despedidas. Quando o táxi subiu a Rua Direita, vi os lenços a acenar, ouvi os gritos dos que ficavem, e enchi-me de uma vaga dor de alma, ao mesmo tempo alheia e saída do fundo das minhas lágrimas. Um dia seria a minha vez de ficar ali e dizer adeus à família, ou de ser eu a partir da minha terra, rumando aos caminhos, aos barcos e aos aviões da emigração.
O escoamento da minha família da ilha para fora, iniciou-a a tia Urbana, ao decidir, quase de um dia para o outro, embarcar para o Brasil, numa fuga madrugadora e clandestina. Tomaria o barco para Lisboa, depois um avião para S. Paulo, e assim se perderia da ilha e da nossa memória dela. Mal me recordo do seu rosto seco e pequenino, tão circunspecto como o do meu pai. Mas lembro-me perfeitamente que a vimos partir à frente da camioneta do Nordeste, tão cedo quanto o permitiam as primeiras luzes da manhã, sendo a sua intenção andar um bocado de caminho até ser apanhada na estrada, para assim poupar o preço de meio bilhete na passagem para a cidade de Ponta Delgada.
A tribo da família despediu-se dela à ponta da freguesia, de saída Para o Caminho Novo, e ficou a assitir à lenta e progressiva extinção na maçã rosada do dia e do destino. Vi-a subir a rampa do Caominho Novo, voltar-se de vez em quando para trás, dizer adeus, limpar as lágrimas ao lenço com que acenava; desapareceu no alto da curva, onde a estrada começava a descer para a ribeira da Salga, e nunca mais voltei a ver o seu pequeno rosto de símio. Porém os adultos que comigo estavam puseram-se a espiar-lhe os passos pela estrada abaixo. Instigaram-me a abrir bem os olhos, a vê-la lá muito ao longe, descrevendo a curva do Redondo, passando entre os manchos de hortênsias azuis que muravam a estrada. Diziam que lá ia ela, com a sua cabeça a dar a dar, olhando em frente, sempre e só em frente. Eu, que deixara de vê-la, concluí que a minha tia Urbana era afinal uma questão de fé. Todos precisavam de acreditar na partida e na passagem dela, tanto quanto ainda hoje eu creio na sua existência brasileira. Por isso decidi também mentir a mim próprio e dizer aos outros que sim: era verdade, eu continuava a avistá-la ao longe, nos confins da estrada e do destino. Para que me acreditassem, acenei-lhe com grandes e repetidos gestos de adeus e despedida, como faziam os tios e os primos que ali tinham vindo para a chorar. Contudo, bem no fundo da alma, apenas me despedia da infância e da família, do tempo e da idade - os quais nunca mais pararam de perseguir-me, de me levar no vento, de comigo se perderem entre memórias, prazeres, sombras, fios, ecos, claridades, amarguras da vida.
Movimento de partida - João de Melo in Boletim Cultural Fundação Calouste Gulbenkian, Dez. 1994
martadutra7@gmail.com

Wednesday, March 14, 2007

Pico - Manuel Alegre

Foto: Marta Dutra - Faial


INICIAÇÃO

Gostava de aprender a linguagem do peixe.
O recado do golfinho para o golfinho
A fala da baleia.
Ou o grito da gaivota para a gaivota.
O som inarticulado de qualquer latido.
Ou o simples zumbido. Ou o silêncio
carregado
de sinais.
Talvez então o sentido primordial.
O ritmo inicial e iniciático do poema.
A batida do mar. A batida do vento.
A batida da terra.


ILHA DE BRUMA

Eu buscava uma ilha sobre o vento e a espuma
a que só era de ser a sempre ausente
ilha nenhuma.

Agora tenho-a à minha frente
ilha de bruma

Buscava um lugar santo um canto um cântico
um triângulo mágico uma palavra um fim.
E vejo um grande pico sobre o atlântico
e uma ilha a nascer dentro de mim.

in Pico - Manuel Alegre

Livre-arbítrio - José Eduardo Agualusa


Um anjo caiu do futuro e estatelou-se em pleno Chiado. Levantou-se, sacudiu a poeira das asas, ensaiou dois ou três passos, ainda um tanto aturdido, e finalmente interrogou Fernando Pessoa:
"Pode dizer-me em que tempo estou?"
Era Inverno mas a noite, límpida e seca, poderia ser de Verão - excepto pelo frio. Nas ruas não se via viva alma. O poeta ergueu-se devagar do seu silêncio de bronze e espreguiçou-se. Estudou, sem surpresa, o viajante. Suspirou, enfim, morto de tédio.
"Em toda a parte o tempo é semelhante. De onde você vem, por exemplo, não há com certeza mais nem melhor futuro do que aqui. Eventualmente, haverá apenas um pouco mais de passado."
O anjo era um tipo pálido e esguio. A sua silhueta recortava-se na noite como um simples traço de giz num quadro negro. Estava inteiramente nu e todavia isso não parecia incomodá-lo. Dir-se-ia imune ao frio. Fernando Pessoa esforçou-se durante um breve instante por aparentar alguma simpatia (há que ser simpático com os estrangeiros).
"Lá, de onde você vem, não se usam roupas?"
"Usam, mas ninguém viaja vestido através do tempo."
Pessoa desinteressou-se do viajante e voltou a sentar-se. O outro postou-se muito sério diante dele; os olhos, de um azul etéreo, quase transparentes, fixaram-se nos olhos absortos do poeta. Falava pausadamente, num esforço por dar às palavras a sua inteira substância, sílaba a sílaba, como quem só há pouco aprendeu o idioma. O sotaque era macio e quente, um pouco cantado:
"O que eu quero é saber se este é o tempo das guerras."
Ferando Pessoa encolheu os ombros magros:
"É o tempo dos homens, o que vai dar ao mesmo". Indicou a cadeira ao seu lado esquerdo: "Não se quer sentar? Podemos fazer de conta que estamos os dois a beber um café..."
O anjo sentou-se de cócoras na cadeira, como um adolescente, o queixo apoiado nos joelhos e os braços prendendo as pernas. A cabeleira comprida, muito loira, quase lhe ocultava as asas.
"Vim em busca do ódio."
"Veio no tempo certo. Lembro-me do ódio desde muito novo. Lembro-me do quanto eu lhe era alheio... Posso saber porque lhe interessa esse tema?"
"Curiosidade. Pense em mim como um investigador."
"Compreendo", murmurou Pessoa: " como um antropólogo entre os canibais".
"Não", corrigiu o anjo: "como um zoólogo entre os chacais."
Fernando Pessoa concordou. Visitavam-no ali, n'A Brasileira, toda a espécie de excêntricos. Um viajante do futuro, nu e com asas, em busca do mal, era do mal o menos. Sentia pesar-lhe sobre as pálpebras um grande sono metálico. Queria fechar os olhos e dormir. O anjo, porém, não o largava:
"Veja bem, o livre-arbítrio..."
"O que tem o livre-arbítrio?"
"O livre-arbítrio permite que o senhor adormeça nessa cadeira, agora, ou que se levante e vá pela cidade em busca da beleza da vida. O livre-arbítrio permite que os homens escolham entre o ódio e o amor..."
Fernando Pessoa começava a sentir um nervoso miudinho a subir-lhe pelas pernas. Seria o sono; seria aquele tipo com asas e a sua vã filosofia, ou tudo isso junto numa noite de Inverno. Cortou irritado:
"Pois o que eu quero é dormir!..."
O anjo assutou-se com a veemência do poeta.
"Certo. Consigo compreender a sua escolha. Mas entre o amor e o ódio o que leva um homem a escolher o ódio?"
Fernando Pessoa não respondeu. Vieram-lhe à memória, sem motivo algum, as imagens perdidas da sua infância em África. Ele nunca falava daquele tempo. Os dias eram cheios de vento. Os ossos estalavam, ao sol, sob a pele, como coisas antigas. Algures, na imensidão das tardes, ladravam cães. Voltou a ouvir o eco disperso dos gritos. Um menino, numa bicicleta, fugindo da turba (teria roubado a bicicleta?). Certa ocasião, numa estrada abandonada, vira uma coisa incrível: uma roseira explodindo em pleno asfalto.
"Não sei", disse. "Talvez o vazio. Talvez as pessoas se tenham esquecido de que existe o livre-arbítrio."
O tempo mudou com a madrugada. Choveu. Umá água mole, exausta, que a luz do sol atravessava com esforço. Os primeiros trauseuntes que passaram, apressados, diante d'A Brasileira, estranharam um pouco: não havia ninguém sentado à mesa do poeta.
Livre-Arbítrio in Contos que contam - José Eduardo Agualusa
martadutra7@gmail.com

Tuesday, March 13, 2007

O gémeo e a sombra - João de Melo

Eu, que gosto tanto do mar e da sua voz que por vezes adivinho até no encadeamento obscuro dos meus sonhos, tenho por hábito passear sozinho ao longo da praia, de onde posso admirá-lo ou ficar a ouvi-lo sob a luz branca dos fins de tarde. Vou por ali fora, sozinho, entregue aos meus pensamentos, caminhando ao rés das fímbrias de água que as ondas baldeiam sobre a areia húmida, tornando-a plana e lisa como vidro. Recebo do mar a sua paz azul que me entra pelos olhos e que enche de inconfessáveis segredos o meu coração. Sinto-a como um suspiro na pele. A voz do mar traz até mim essa música do indefinido que por certo existe por detrás do silêncio, nas regiões da alma e no limite extremo do ser. Ouço nela a minha mãe cantar. (...) Não sei que outras coisas escuto: se o infinito que se foi embora para sempre com ela, se o princípio de mim mesmo no corpo materno, se tão-só as já longínquas histórias da minha infância.
Desde que ela morreu, creio absolutamente no meu regresso ao mar. Porque a vida da minha mãe não terminou ainda; apenas se mudou do júbilo vivo da terra para as tais regiões do espírito que agora caminha sobre as águas. (...)
Penso nisso todas as vezes que o mar me chama para junto de si e eu me ponho a passear na praia, de cá para lá e de lá para cá, à frente das ondas. (...)
Inundam-se-me então os pés de espuma e areia. Só o mar é grande. E só ele me transmite o sentimento da sua grandeza a perder de vista: uma paz cansada e tranquila, o tempo numa única mistura de mágoa, alegria e água, da qual se sustenta a minha alma. Todo ancorado em mim, e comigo, o mar. No coração, nas veias. Como uma seiva que, em árvore, irrigasse de sal e de paz a minha cabeça.
(Hoje, então, esta enormíssima dor de mar!... Algo como uma saudade muito antiga, mas em presença dele. Como quando, enfim, estando nós perante a pessoa amada de que vamos ter de separar-nos, o coração se enche de uma dor ausente e futura, de uma melancolia que ainda está para chegar. Na hora da despedida, todos os amores se tornam maiores do que a própria vida: esse, precisamente, o meu caso.)
Enquanto caminho pela areia adiante, o som dos meus passos entra no ruído e no movimento das ondas, extingue-se na sonatina do mar. Leva-o comigo a brisa. Porque a brisa é tão-só um elemento de mistura, o lugar de encontro de duas vozes que não se dissolvem nem se fundem uma na outra. A minha voz é o silêncio. E a voz do mar transforma-se numa substância líquida e sonora que se expande por cima da minha cabeça. Sempre que assim acontece, deixam de existir para mim o céu, as cores da paisagem, os ruídos do mundo que passa na estrada, lá muito ao cimo da praia. E não há mais ninguém sobre a face da Terra. Só eu perante esse mar aéreo e superior que me fecha por dentro da concha da sua abóbada. Torno-me nele eterno e universal.
Saindo de dentro de mim, vou até ao limite de uma outra dimensão que não me pertence. Em volta, fica a pairar o silêncio todo do mundo. E então deixam de passar nuvens e aves no céu. Também o firmamento não existe. Mesmo o vento já não é aquele ser vivo que viaja de um continente para outro. Apenas o azul e eu perante esse absoluto de mar que será talvez o princípio e o fim das coisas criadas por Deus. Ou pelo Diabo, nunca o soube ao certo.
Pela areia adiante, caminharei pois até ao infinito de mim mesmo. Sozinho com os meus pensamentos. Mas pensar cansa tanto como levar um peso morto dentro da cabeça. E dói como um espinho encravado num calcanhar. Toda a vida me tem doído pensar. Paro, afasto de mim os pensamentos. Sem eles, os olhos ficam mais lúcidos; e o sofrimento deixa de pesar sobre o coração. (...)
Estendo a mão à minha sombra, vejo que ela corresponde ao gesto: a mão do meu irmão une-se logo à minha, como se desde sempre fosse a parte que lhe faltava. De mãos dadas, caminhamos ambos para o mar. Vamos pela água, vamos sobre as águas, e depois pousamos nelas como pousam os anjos ou as aves ao caírem do céu com a tarde. Logo a seguir, entramos no doce imaculado silêncio do mar - cada vez mais silêncio, e mais doce à medida que descemos ao fundo dele. Além do silêncio, o escuro. Mas é do fim das trevas do mar que de novo se ergue vinda direita a nós, a canção da nossa mãe. A sua voz é outra vez tão nítida como aquela laranja de Lua que nos envia o luar nas noites de Setembro. Sentimos as mãos dela em volta do nosso corpo-sombra, e depois a afagarem-nos a cabeça. Por fim, a mãe abraça-nos contra o seu imenso seio oceânico, o mesmo de outrora, pegando-nos de novo a ambos ao colo, um em cada braço - e nós lá vamos com ela não sei bem para onde, talvez para um lugar marinho qualquer, um lugar de ausência que é suposto ser o sítio das mães mortas que perduram cantando sob o mesmo sol branco do mar - o qual acende agora toda a luz sobre a praia e aquece na minha alma a dor, a única esperança de me salvar.
O gémeo e a sombra in As coisas da alma - João de Melo
martadutra7@gmail.com

Friday, March 09, 2007

14. Cubro toda a terra daqui...

Foto: Marta Dutra - Horta

Cubro toda a terra daqui.
Dizem que é o efeito das ilhas, já o pressinto.
As nuvens enegrecem no canal enquanto te digo isto.
Há também algo de nocivo nisso, eu sei. Tu sabes.
Talvez venha a tornar-se a voz numa sombra - é o
que dizem, ao chegar a estação das beladonas.
Foi após embarcares que senti tudo isto,
que comecei a confundir a noção dos dias,
o tempo que trazemos nos relógios.
Chego a tremer com o silêncio no planalto,
com o cheiro a cânhamo das furnas e
da neblina limosa formando-se em torno delas.
Acontece-me ter perdido alguns nomes,
outros lugares parecem-me vagos,
ausentes noutro corpo talvez esquecido, em extinção.
Mas descansa não é por vontade, é mesmo assim, já tinha dito.
É talvez porque o que fomos se apagasse e
só pudéssemos esperar
e uma sombra nos cresça na voz, cada vez mais.
Tu dirás isso por aí à tua maneira, se
quiseres - já agora não o esqueças.
Vou ficando semanas seguidas cá em cima,
sem descer à costa.
Aqui aguardo me tragam as cartas, as tuas,
e não julgues que não dei conta dessa angústia.
Se soubesses como me parecem sempre um eco, o
presságio de um mal que está para acontecer.
Mas não são sempre elas isso mesmo,
uma voz sustendo-nos, um
medo na parte mais desconhecida da memória?
Agora enquanto te digo isto as nuvens enegrecem o canal,
a tarde ficou mais bela, como só aqui pode ficar
com o vento que sopra do norte, da graciosa.
Tu sabes como sempre estas coisas me impressionaram:
a ressonância do ar cá em cima, o mar
escuro longe da costa, além de todo o possível,
a rebentação das ondas nos baixios para depois invadir as praias.
Mas além de tudo este silêncio oferecido no caule das hortências,
esse silêncio impedindo a aproximação do
mar a toda a volta.
Já te disse como aprendi a desconfiar do mar.
Da sua deriva invisível de um ao outro lado da ilha
como um perigo,
e fosse preciso agarrarmo-nos ao cais para não cairmos.
Já te disse que não há outro lugar para se saber isso,
outro lugar de onde se cubra assim
toda a terra.
Tenho cuidado do viveiro, tal e qual me ensinaste,
lá vou escrevendo uma ou outra coisa devagar, se a isso leva.
O lúcio passa de quando em vez de
caminho para o norte grande.
Vai ficando por um ou dois dias, quando insisto.
Fala-me muito das ilhas e das pequenas histórias,
das araucárias que chegaste a ver, da
urzelina e da vila que ficou submersa com a lava, menos a torre,
das pequenas baleias que se passeiam ao longo da costa
como no belíssimo livro do tabucchi, que te contei.
Tudo está aqui ligado, no fundo - mas isso já nós sabemos.
Por isso cubro toda a terra daqui.
Olha,
um barco vem descrevendo agora a sua rota no canal.
Conheço-o daqui tão bem no seu silêncio.
Foi nele que chegámos.
Foi nele que partiste.
E sabes, no que mais tenho pensado é nisso,
no significado das rotas,
no que eles têm a ver com tudo isto que te conto,
com o que nos conduz na vida e não sabemos.
Há um mistério nisso. Tu também sabes.
É o maior mistério e não podemos persegui-lo.
Como se nos afastássemos e só pudéssemos esperar
e fosse mesmo isso o que está certo.
Sim, cubro toda a terra daqui.
Outro dia abri a semente vermelha do café raro
e percebi que não quero sair nunca mais.
Talvez te custe saber isto, não sei. Se
calhar custa-me mais a mim.
Por isso quero dizer-te que não posso partir.
Acho que a vida encontrou-me na tranquilidade certa,
a verdadeira, a que nos cerca como um nevoeiro.
E podia contar-te mais, se quisesses.
Agora entendo como devíamos contar a nossa vida
sabias?
Contar o que ela tem a ver com tudo isto,
dealbular por toda a nossa vida até aportarmos aqui,
vigiados pelas hortências,
cobrindo toda a terra.
Agora eu amo este planalto como não te amo a ti.
Porque amo-te apenas quando partiste.
Quando me deixaste na mão a certeza de te
esperar
e o dom de vigiar os navios e os cagarros.
Agora o vento cresce do mar pelo lado norte
e espero-te.
As nuvens enegrecem o canal, já tinha dito.
Assim ficarei até que chegues.
Até reconhecer o teu silêncio na inquietação das rotas.
Disseste que vinhas quando não esperasse a
tua carta.
E crê mais não ires pressentir do que a minha
sombra
lá pelo tempo das beladonas.

Rui Coias in A Função do Geógrafo

Thursday, March 08, 2007

Canto de mim mesmo - XLVI

Sei que tenho o melhor do tempo e do espaço, e nunca fui medido e nunca serei medido.
A minha viagem é eterna, (venham todos ouvir-me!),
Os meus sinais são de uma gabardine, bons sapatos e um cajado que cortei no bosque,
Nenhum dos meus amigos se instala na minha cadeira,
Não tenho cadeira, nem igreja, nem filosofia,
Não conduzo ninguém à mesa de jantar, à Biblioteca, à Bolsa,
Só te conduzo a ti, homem ou mulher, a um outeiro,
A minha mão esquerda aperta-te a cintura,
A minha mão direita assinala a paisagem dos continentes e o passeio público.

Nem eu nem ninguém pode percorrer por ti esse caminho,
Deves percorrê-lo por ti mesmo.

Não fica longe, está ao teu alcance,
Talvez tenhas andado por ele desde que nasceste e não o saibas,
Talvez fique em toda a parte, na água e na terra.

Carrega os teus farrapos, meu filho, e eu carregarei os meus, apressêmo-nos,
Chegaremos a maravilhosas cidades, chegaremos às nações livres.

Se estás cansado, deixa-me levar os fardos, e põe a tua mão na minha anca,
E no devido tempo hás-de retribuir-me,
Pois já que partimos nunca poderemos descansar.

Hoje, antes do alvorecer, subi a uma colina e olhei os céus e as constelações,
E perguntei ao meu espírito: Quando abraçarmos essas orbes, quando tivermos
o prazer e o saber de quanto nelas há sentir-nos-emos realizados e satisfeitos?
E o meu espírito respondeu: Não, se alcançarmos esses cumes é só de passagem,
é só para continuar mais além.

Tu também interrogas e eu escuto,
Respondo que não posso responder, tens de descobrir por ti.

Senta-te um instante, meu filho,
Aqui tens bolachas para comer e leite para beber,
Mas logo que adormeças com a tua roupa fresca, dar-te-ei um beijo de
despedida e abrir-te-ei a porta para que partas.

Tempo que baste já sonhaste os teus sonhos maus,
Agora afasto as remelas dos teus olhos,
Deves habituar-te ao esplendor da luz e de cada momento da tua vida.

Muito tempo rondaste timidamente a praia agarrado a uma tábua,
Agora quero que sejas um nadador intrépido,
Que saltes no meio do mar, que te ergas outra vez, que me faças sinal, grites
e rias enquanto a água cai dos teus cabelos.

Walt Whitman in Canto de Mim Mesmo

martadutra7@gmail.com

Wednesday, March 07, 2007

Acho tão natural...

Acho tão natural que não se pense
Que me ponho a rir às vezes, sozinho,
Não sei bem de quê, mas é de qualquer cousa
Que tem que ver com haver gente que pensa...

Que pensará o meu muro da minha sombra?
Pergunto-me às vezes isto até dar por mim
A perguntar-me cousas...
E então desagrado-me, e incomodo-me
Como se desse por mim com um pé dormente...

Que pensará isto de aquilo?
Nada pensa nada.
Terá a terra consciência das pedas e plantas que tem?
Se ela a tiver, que a tenha...
Que me importa isso a mim?
Se eu pensasse nessas cousas,
Deixaria de ver as árvores e as plantas
E deixava de ver a Terra,
Para ver só os meus pensamentos...
Entristecia e ficava às escuras.
E assim, sem pensar tenho a Terra e o Céu.

Alberto Caeiro

.
I find it so natural not to think
I start to laugh sometimes, all alone,
I don’t really know why, but it’s about something
To do with knowing there are people who think...

What is my wall thinking about my shadow?
I ask myself this sometimes until I notice
I’m asking myself things...
And then I get mad at myself, and feel uncomfortable
Like when my foot falls asleep...

What does this think about that?
Nothing thinks about anything.
Does the earth have consciousness of its stones and plants?
If it did, it would be people. . .
Why am I worrying about this?
If I think about these things,
I’ll stop seeing trees and plants
And stop seeing the Earth
For only seeing my thoughts...
I’ll get unhappy and stay in the dark.
And so, without thinking, I have the Earth and the Sky.

Wednesday, February 28, 2007

Apresentação

Cabeça - Amadeo de Souza-Cardoso



Eu sou essa pessoa a quem o vento chama,
a que não se recusa a esse final convite,
em máquinas de adeus, sem tentação de volta.

Todo o horizonte é um vasto sopro de incerteza.
Eu sou essa pessoa a quem o vento leva:
já de horizontes libertada, mas sozinha.

Se a Beleza sonhada é maior que a vivente,
dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho?
Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.

Pelos mundos do vento, em meus cílios guardadas
vão as medidas que separam os abraços.
Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:

"Agora és livre, se ainda recordas."

Cecília Meireles in De Solombra